Política

Padre Júlio Lancellotti recebe o título de Cidadão Honorário de Alagoas

30/03/2026
Padre Júlio Lancellotti recebe o título de Cidadão Honorário de Alagoas

Em sessão solene realizada na segunda-feira, 30, a Assembleia Legislativa concedeu o título de Cidadão Honorário do Estado ao padre Júlio Lancellotti, em reconhecimento à sua trajetória de mais de quatro décadas dedicadas à defesa dos direitos humanos e ao cuidado com a população em situação de rua. Exerce a função de pároco da paróquia de São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, na cidade de São Paulo. Além da paróquia, o padre é responsável pelas missas realizadas na capela da Universidade São Judas Tadeu, situada na mesma rua, e também exerce a função de vigário episcopal para a Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo.

Proposta pelo deputado Ronaldo Medeiros (PT), a homenagem ocorreu no mesmo dia em que a Casa também debateu a Campanha da Fraternidade 2026, que tem como tema "Fraternidade e Moradia". O parlamentar iniciou a solenidade destacando sua admiração pela vida e pelo trabalho do religioso. "Eu tenho uma admiração muito grande pela vida, pela trajetória desse grande ser humano que é o padre Júlio Lancellotti, uma vida voltada para as pessoas que mais precisam, um homem que dedica sua vida à população em situação de rua, na construção de um Brasil melhor, mais justo, mais democrático", afirmou Ronaldo Medeiros.

O deputado fez uma reflexão sobre o papel dos cristãos diante das desigualdades sociais, contrapondo a atuação do homenageado a uma visão distorcida da fé. "Se Jesus retornasse hoje, onde ele estaria? Nos templos, no ar-condicionado, ou ele iria para a população em situação de rua, para as grotas, para as favelas, para os enfermos? Hoje, infelizmente, uma parte dos cristãos ignora o exemplo de Cristo. Eles têm um Cristo fake, um Cristo que não existe", criticou Ronaldo Medeiros, completando que o padre Júlio "está nas ruas, alimenta as pessoas, não só alimenta com a comida, mas alimenta principalmente a alma e o espírito das pessoas que precisam".

Homenageado

Ao receber a honraria, o padre Júlio Lancellotti emocionou o plenário com um discurso que mesclou reflexões teológicas, crítica social e afeto pelo povo nordestino. Ele iniciou reforçando que a luta pelos direitos dos mais vulneráveis é coletiva. "Essa não é uma luta solitária de ninguém, mas uma luta de muitos. Moradia é direito, não é favor. A gente sabe que é uma luta que deveria ser feita com coração, com amor, mas a gente sabe que também, infelizmente, tem sido muito difícil", disse o religioso. Lancellotti fez uma analogia com o Evangelho de Mateus, lido no Domingo de Ramos, para falar sobre o silêncio imposto aos pobres. "Jesus, no Evangelho de Mateus, é solitário, é silente, fica em silêncio, não se defende. E o próprio governador pergunta: você não vê tudo que falam contra você, você não vai se defender? E Jesus permaneceu em silêncio. É o nosso silêncio muitas vezes. Difícilmente, em qualquer instância, a palavra dos moradores de rua é levada a sério", refletiu.

O agraciado como túitulo homenageou figuras nordestinas que marcaram sua trajetória e a história do Brasil. "No Nordeste do Brasil, nós temos figuras que marcam a vida do povo brasileiro, como Dom Helder Câmara, como Padre Cícero, como Freire Damião, como Paulo Freire, como Margarida Alves. Tem muitas pessoas que marcam a vida do povo brasileiro a partir do Nordeste", lembrou. Ele fez ainda uma crítica contundente ao preconceito contra os migrantes nordestinos em São Paulo. "Os nordestinos construíram São Paulo e São Paulo os desprezou e não os respeitou com dignidade", afirmou. Ao final, emocionado, agradeceu pelo título e brincou. "Eu agradeço ter o título de cidadão alagoano, porque na hora que São Paulo não me quiser mais, eu venho pra cá. Já que eu sou cidadão aqui de Alagoas também", disse, arrancando aplausos. Ele encerrou com uma mensagem de resistência: "O nosso grande testemunho é resistir, é insistir. Eu sempre tenho dito que essa frase ficou bastante marcada: eu não luto pra vencer, eu sei que vou perder. Eu luto pra ser fiel. Até o fim. Lutem também."

Completaram a mesa de honra o deputado Breno Albuquerque (MDB); o juiz federal Antônio Araújo; o secretário de Estado dos Direitos Humanos, Marcelo Nascimento; a assistente social Sonally Bastos; o reitor da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal), Odilon Máximo; o desembargador Tutmés Ayran; Rafaelly Machado, representante nacional do Movimento da População em Situação de Rua; e Alexandre Bezerra, coordenador da Pastoral do Povo de Recife.

Ascom ALE