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No Dia do Médico, Inteligência Artificial ganha espaço no combate à exaustão e ajuda profissionais a recuperar tempo

17/10/2026
No Dia do Médico, Inteligência Artificial ganha espaço no combate à exaustão e ajuda profissionais a recuperar tempo
Fotos: Pesquisas apontam que uso da tecnologia traz redução do esgotamento emocional e da burocracia com o uso da tecnologia | Divulgação

No Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, uma pesquisa internacional chama a atenção para os desafios enfrentados por quem escolheu cuidar da saúde dos outros. Um levantamento da plataforma americana Doximity, com 7.590 médicos, revelou que 63% dos entrevistados não gostariam que os filhos seguissem a mesma profissão. O resultado expõe um desgaste que ultrapassa as longas jornadas e os plantões, alcançando a perda de autonomia, a pressão por produtividade e o tempo cada vez maior dedicado a atividades burocráticas.

No Brasil, o cenário também preocupa. Dados divulgados pela Afya indicam que 58,2% dos médicos entrevistados já enfrentaram episódios de esgotamento relacionados ao trabalho, enquanto cerca de 45% relataram problemas de saúde mental. A sobrecarga ocorre em um momento de expansão da formação médica no país, que deve encerrar 2025 com aproximadamente 635 mil profissionais, segundo a Demografia Médica.

Entre os fatores que contribuem para o desgaste está uma atividade pouco percebida pelos pacientes: o tempo gasto diante do computador. Um estudo americano publicado em 2016 mostrou que, para cada hora de atendimento direto, médicos dedicavam quase duas horas a prontuários eletrônicos e outras tarefas administrativas. É nesse contexto que a inteligência artificial começa a apresentar resultados concretos, com ferramentas capazes de reduzir o trabalho burocrático e permitir que os profissionais concentrem mais atenção no atendimento.


Uma pesquisa publicada na revista científica JAMA Network Open, com participação da Universidade Yale, acompanhou 263 profissionais de saúde em seis sistemas de atendimento dos Estados Unidos. Após 30 dias de utilização de uma ferramenta de inteligência artificial que auxilia na documentação das consultas, a proporção de participantes com sinais de burnout caiu de 51,9% para 38,8%.

A tecnologia utilizada no estudo acompanha a conversa entre médico e paciente e produz uma versão preliminar do prontuário, posteriormente revisada e validada pelo profissional. Dessa forma, o médico pode reduzir o tempo dedicado à digitação e à organização das informações clínicas, mantendo a responsabilidade pelo conteúdo registrado.

Os resultados também apareceram em pesquisas conduzidas pelo Mass General Brigham e pela Emory Healthcare, envolvendo mais de 1.400 profissionais. Os estudos identificaram redução do esgotamento e melhorias na experiência de trabalho após a adoção de ferramentas semelhantes.

Na rede americana Kaiser Permanente, a utilização da inteligência artificial em aproximadamente 2,5 milhões de atendimentos permitiu economizar quase 16 mil horas de documentação em 15 meses. A experiência demonstra o potencial da tecnologia para diminuir tarefas repetitivas que, durante anos, passaram a ocupar uma parcela significativa da rotina médica.

O que fazer com o tempo recuperado?

Embora os resultados sejam promissores, a discussão sobre inteligência artificial na medicina envolve uma questão que vai além da eficiência tecnológica: o que acontece com o tempo economizado?


Um estudo publicado em abril de 2026 na revista JAMA, com dados de 8.581 profissionais de cinco instituições americanas, identificou uma redução média de 16 minutos no tempo dedicado à documentação a cada oito horas programadas de atendimento. O levantamento, porém, não encontrou diminuição significativa do trabalho com prontuários fora do expediente.

Os resultados indicam que os benefícios da inteligência artificial dependem também da maneira como as instituições organizam suas rotinas. O tempo liberado pode representar mais atenção ao paciente, menos trabalho após o expediente e melhores condições de exercício profissional, mas também pode acabar absorvido por novas demandas.

Para Marcos Betiati, que acompanha as transformações provocadas pela inteligência artificial na saúde, a discussão precisa considerar o impacto da tecnologia sobre a rotina dos profissionais e a qualidade da assistência.

“A inteligência artificial pode ajudar o médico a recuperar um tempo que hoje é consumido por tarefas burocráticas. Mas precisamos discutir o destino desse ganho. Se a tecnologia permite economizar minutos em cada atendimento, esse tempo deve contribuir para uma relação mais atenta com o paciente e para uma rotina profissional menos exaustiva. O objetivo não pode ser simplesmente transformar cada minuto economizado em mais uma consulta.”

A reflexão ganha importância diante da crescente quantidade de informações científicas que os médicos precisam acompanhar. Somente na oncologia, foram publicados mais de 1,17 milhão de artigos em uma década, um volume equivalente a aproximadamente 300 publicações por dia. Além da documentação clínica, ferramentas de inteligência artificial podem auxiliar na organização e na busca de informações, desde que seus resultados sejam avaliados criticamente pelos profissionais.

Uso da inteligência artificial já tem regulamentação no Brasil


O avanço dessas ferramentas levou o Conselho Federal de Medicina (CFM) a estabelecer regras específicas para a utilização da inteligência artificial na prática médica. A Resolução nº 2.454/2026, em vigor desde 26 de agosto, determina que os sistemas funcionem como instrumentos de apoio, preservando a autonomia e a responsabilidade dos profissionais.

A norma estabelece princípios de transparência, segurança, proteção de dados e supervisão humana. As decisões sobre diagnósticos, tratamentos e condutas clínicas continuam sob responsabilidade do médico, que deve avaliar criticamente as informações produzidas pelos sistemas.

A regulamentação também reforça a necessidade de governança na utilização dessas tecnologias, para que a busca por eficiência não comprometa a segurança dos pacientes nem a qualidade da assistência.

No Dia do Médico, a incorporação da inteligência artificial abre uma nova perspectiva para uma profissão marcada por exigências crescentes. Os estudos ainda não permitem afirmar que a tecnologia, isoladamente, seja capaz de resolver o esgotamento profissional, mas mostram que parte da sobrecarga pode ser reduzida.


Em uma atividade na qual o tempo é frequentemente dividido entre o paciente, o computador e as obrigações administrativas, a possibilidade de recuperar minutos ao longo da jornada representa uma mudança relevante. O desafio agora é garantir que os avanços tecnológicos sejam acompanhados de melhores condições de trabalho, permitindo que os médicos tenham mais tempo para exercer a medicina e também para viver fora dela.

Por Assessoria