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Quando o El Niño passa dos dois graus
O termômetro que abre a seção de gráficos deste boletim tem uma escala dividida em faixas, e a última delas, a partir de +2,0°C, é a mais vermelha. A NOAA declara um El Niño formado quando a temperatura das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial fica acima de +0,5°C, e divide o restante da escala em degraus iguais de meio grau: fraco, moderado, forte e muito forte. Até pouco tempo atrás, porém, essa escada ia só até o forte. O último degrau começou a ser utilizado por meteorologistas apenas em 2015, tendo sido incorporado depois pela própria agência estadunidense.
Em fevereiro deste ano, a NOAA trocou o índice oficial de medição. O antigo, ONI, comparava a temperatura do Pacífico equatorial com a média das três décadas anteriores. Como o oceano inteiro esquentou nesse período, em decorrência da mudança do clima, o cálculo passou a somar parte do aquecimento global ao sinal do El Niño e a sobreestimar a intensidade dos eventos recentes. O índice novo, RONI (utilizado neste boletim) desconta o aquecimento médio de toda a faixa tropical e mede o que resta. Em julho, por exemplo, ele registrou +1,4°C, enquanto o antigo já passava de +2,0°C.
O evento de 2023-24 mostra por que a medição mais precisa importa: pelo índice antigo ele ficou em cima da linha dos 2,0°C, no limite da faixa mais alta, e pelo novo ficou na base da faixa anterior, com 1,5°C. A diferença ajuda a explicar por que a intensidade medida pelo antigo índice não correspondia necessariamente à força relativa daquele El Niño em um oceano que, como um todo, já estava mais quente.
Desde 1950, apenas três eventos alcançaram a categoria de El Niño Muito Forte, ou Super El Niño (como é chamado por aqui): 1982-83, 1997-98 e 2015-16. O de 1997-98 é o mais bem documentado no Brasil. A seca associada ao fenômeno criou condições extremas para os incêndios de Roraima, iniciados por fontes humanas de ignição e que queimaram entre 38 mil e 40 mil quilômetros quadrados, até 13,9 mil deles de floresta primária intacta. No semiárido, a estiagem se estendeu de fevereiro a maio de 1998. Só na Bahia, 247 municípios foram atingidos, afetando diretamente cerca de 200 mil pessoas.
Em 2015-16, a Amazônia registrou o calor e a seca mais extremos da série e os reservatórios do Nordeste colapsaram. A intensidade do fenômeno no Pacífico, porém, não determina sozinha o tamanho do estrago. No norte do Nordeste, a chuva depende também das condições do Atlântico tropical, que podem reforçar ou atenuar o efeito do El Niño, como registra o Painel El Niño do CPTEC/INPE.
A NOAA dá mais de 90% de chance deste El Niño chegar à faixa dos dois graus entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. Mais extraordinária é a projeção para o pico do evento: há 69% de chance do trimestre de outubro a dezembro atingir +2,5°C ou mais no RONI, superando todos os eventos desde 1950. Um evento mais intenso aumenta a probabilidade de impactos característicos do El Niño, mas não determina sozinho onde e com que intensidade eles ocorrerão.
O pico no oceano não é necessariamente quando o Brasil mais sente o efeito. Nos eventos anteriores, os impactos mais intensos apareceram nos meses seguintes, à medida que a chuva que faltou foi se acumulando em rio baixo, reservatório vazio e safra perdida. Por isso a importância de acompanhar esses indicadores semana a semana.
El Niño estaciona a um passo da categoria “muito forte”: o Pacífico equatorial completou três semanas em +1,8°C, interrompendo por enquanto a escalada observada desde maio. Faltam 0,2°C para o evento alcançar uma categoria raríssima no histórico recente, atingida pelo El Niño de 2015-16.
Mapa da seca acentua divisão do país: quase nove em cada dez quilômetros quadrados do Sudeste estavam sob algum grau de seca em julho. Enquanto a estiagem ganhou território em quatro regiões, o Sul fez o movimento contrário e praticamente eliminou em um mês a área afetada. O contraste reforça uma das marcas do El Niño: excesso e escassez de água ocorrendo simultaneamente em diferentes partes do Brasil.
Rio Branco sobe em Roraima, mas segue pior que no ano recorde de seca: oito das onze estações caíram na semana, e as duas que subiram são justamente as mais críticas. O rio Branco ganhou 3 cm em Boa Vista e 7 cm em Caracaraí, mas segue 136 cm e 156 cm abaixo do nível que tinha nesta data nos anos de mínima histórica de cada uma, 2016 e 1998. Nas outras bacias o quadro se inverte: o Negro em Manaus caiu 85 cm e ainda está 576 cm acima da seca recorde de 2024.
Queda dos reservatórios acelera: Queda dos reservatórios acelera: o armazenamento do Sudeste/Centro-Oeste caiu 1,6 ponto em uma semana, a maior perda deste acompanhamento, e chegou a 58%. É a quinta queda consecutiva do principal subsistema elétrico do país, aumentando a necessidade de geração térmica. No Nordeste, os reservatórios acompanhados para abastecimento humano romperam pela primeira vez a marca de 50%, com recuo simultâneo nos seis estados monitorados.
Julho já mostra a divisão típica de um ano de El Niño: nenhuma região brasileira escapou de temperaturas acima da média, com a maior anomalia no Centro-Oeste. A precipitação seguiu direções opostas: faltou chuva no Norte enquanto o Sul recebeu volumes acima do normal, antecipando o contraste que tende a marcar os próximos meses.
Primavera começa com pressão sobre safra, fogo e água: as projeções até outubro mantêm quatro regiões com chuva abaixo do normal e apenas o Sul no campo positivo; temperaturas acima da média são esperadas em todo o país. A combinação coincide com três momentos críticos do calendário brasileiro: início do plantio da safra, auge da temporada de incêndios e trecho final do período de esvaziamento dos reservatórios. Soja e café ficam particularmente expostos à irregularidade das chuvas em São Paulo e Minas Gerais.
Focos de incêndio em agosto superam 2025 com aumento expressivo no fim do mês: foram 20.222 focos, 9,6% acima do mesmo mês do ano passado, e agosto sozinho respondeu por 44% de tudo que queimou no país em 2026. A Amazônia ultrapassou o Cerrado e concentrou a maior parte dos focos, com Pará, Mato Grosso e Amazonas à frente entre os estados. O acumulado do ano segue abaixo de 2025, mas a diferença caiu de 5,2% para 3,3% em uma semana, puxada pela última semana de agosto, que concentrou quase um terço dos focos do mês e fechou no dia de maior detecção, 31/08.
Tempestades deslocam 10,3 mil pessoas em agosto, maioria no Rio Grande do Sul: as pessoas afetadas por eventos extremos se espalharam por 107 municípios de 11 estados. Ubá, em Minas Gerais, teve o episódio mais grave do mês, com 8 mortes e 1.109 feridos em uma única chuva intensa. Do outro lado do país, a seca cresceu: 65 municípios de dez estados entraram na lista federal em agosto, entre eles os 22 do Acre, agora reconhecidos município a município.
Publicações e Leituras Recentes
Jornalistas que queiram aprofundar nas causas e na ciência por trás dos números deste boletim encontram abaixo estudos e reportagens recentes sobre o El Niño e sua relação com a mudança do clima. São leituras úteis para contextualizar pautas e checar o que a literatura científica já estabeleceu sobre o fenômeno.
27 ago 2026 Variabilidade do El Niño se intensificou com o aquecimento causado pelo homemEm inglês: Recent strengthening of eastern Pacific ENSO in the last millennium paleorecordCole, J. et al. · Science
11 ago 2026 Um “super” El Niño pode transformar a Amazônia. A maior floresta tropical do mundo está condenada?
Em inglês: A ‘super’ El Niño could transform the Amazon. Is the world’s biggest rainforest doomed?Septer, Q. · Nature ·
El niño e o 1,5C:
Em inglês: Atypical warming pattern of strong 2023–24 El Niño boosts global temperatures to new 1.5°C record
Jiang, N. et al. · Communications Earth & Environment
jun 2026 Um forte El Niño em desenvolvimento em 2026 pode levar as temperaturas globais a recordes
Em inglês: A strong El Niño developing in 2026 could drive global surface temperatures to record highsLiu, Y. et al. · The Innovation Geoscience
16 jun 2026 El Niño em um mundo termicamente saturadoEm inglês: El Niño in a thermally saturated worldGarcía-Soto, C. · Nature · correspondência
O Boletim do El Niño é uma publicação semanal do Instituto ClimaInfo que reúne indicadores oficiais para acompanhar os efeitos históricos do fenômeno no Brasil. A ciência afirma que a crise climática, provocada pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento, está amplificando os efeitos de fenômenos naturais como o El Niño, que atuam cada vez mais sobre um planeta em aquecimento.
Fonte: Assessoria