Geral

Museu Théo Brandão promove encontro sobre memória e ancestralidade afro-alagoana

31/08/2026
Museu Théo Brandão promove encontro sobre memória e ancestralidade afro-alagoana

Weruska Omena

Memórias que atravessaram décadas voltarão a ser ouvidas. O Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore (MTB), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em parceria com a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proexc), realiza, nesta quarta, dia 2 de setembro, às 16h, no pátio do Museu, o encontro “Memórias Alagoanas do Axé: Coleção do Museu Théo Brandão”, uma programação dedicada à memória, à ancestralidade, ao patrimônio cultural afro-alagoano e à restituição.

A iniciativa propõe um encontro entre o acervo preservado pelo Museu e os saberes, as vozes e as memórias das comunidades de terreiro de Alagoas. Mais do que apresentar documentos e registros históricos, o projeto busca fortalecer a escuta e o diálogo com as comunidades, reconhecendo seu protagonismo na preservação e na continuidade de seus patrimônios culturais.

Registros que atravessam o tempo

Um dos momentos centrais da programação será o lançamento público de registros sonoros que integram a Coleção do Museu Théo Brandão. Produzidos em um contexto histórico no qual diferentes manifestações da cultura afro-alagoana foram registradas, esses documentos preservam vozes, cantos, histórias e experiências que ajudam a compreender a trajetória da cultura popular e das religiões de matriz africana em Alagoas.

A pesquisa e a preservação desses registros também possibilitam novas formas de compreender o patrimônio cultural afro-alagoano. Para Wagner Neves Diniz Chaves, antropólogo, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-diretor do Museu Théo Brandão entre 2010 e 2014, a relevância histórica dos registros está diretamente relacionada à sua antiguidade e ao que preservam sobre as tradições afro-alagoanas: “A importância histórico-cultural é enorme, pois trata-se possivelmente dos registros em áudio mais antigos dos xangôs e candomblés alagoanos”, conta Wagner.

Além de sua importância histórica, o acervo constitui uma fonte fundamental para a pesquisa etnográfica desenvolvida pelo antropólogo, permitindo não apenas a escuta das manifestações da musicalidade afro-alagoana, mas também uma aproximação com os métodos de pesquisa de Théo Brandão e sua relação com os interlocutores.

“O acervo vem sendo a base da minha pesquisa etnográfica. Através da escuta das gravações temos acesso não somente à diversidade de expressões da musicalidade afro-alagoana - do Nagô à Umbanda passando pelas modalidades traçadas - como também aos modos como Théo Brandão fazia pesquisa e se relacionava com seus interlocutores", relata.

Para Wagner, fazer com que essas gravações voltem a ser ouvidas pelas comunidades de axé também possui uma dimensão de reparação histórica e de aproximação entre as gerações, permitindo que praticantes de hoje tenham contato com registros sonoros relacionados aos seus antepassados.

“O retorno, devolução e restituição dessas gravações às comunidades de axé em Alagoas é um ato de reparação histórica e um modo de aproximação dos praticantes de hoje com as vozes, os toques e as sonoridades de seus antepassados”, acrescenta o antropólogo.

A restituição desses registros representa, portanto, mais do que a disponibilização de um material de arquivo. É uma oportunidade de reencontro com memórias e saberes que permanecem vivos nas comunidades e de aproximação entre instituições de memória, pesquisadores e os sujeitos que dão continuidade a esses patrimônios.

Museu, memória e comunidade

Ao promover a iniciativa, o Museu Théo Brandão reafirma seu compromisso com uma atuação museológica pautada pela escuta, pelo diálogo e pelo reconhecimento das comunidades como protagonistas de suas próprias histórias.

Para a diretora do Museu Théo Brandão, Hildênia Oliveira, a restituição dos registros representa uma responsabilidade que ultrapassa a preservação física de um acervo. Trata-se de devolver às comunidades vozes que fazem parte de sua própria história e de reafirmar o papel social do Museu na construção de uma memória mais plural e democrática.

“É uma devolutiva de modo geral. Os pesquisadores, de modo geral, ‘bebem’ dela. As religiões de matriz africana aqui em Alagoas possuem uma mácula gigante, que é a Quebra de Xangô. Então, devolver essas vozes a quem pertence é o papel da instituição museológica. Não consigo ver o papel do Museu sem essa ligação direta, sem a extensão, a ligação direta com as comunidades de terreiro. Sobretudo, as vozes são vivas, então devolvê-las é um dos papéis mais importantes nessa jornada de requalificar o acervo do MTB.”

A fala da diretora evidencia uma compreensão do patrimônio como algo vivo, que não se encerra nos objetos, documentos ou registros preservados pelas instituições. No caso das religiões de matriz africana em Alagoas, essa perspectiva ganha uma dimensão ainda mais significativa diante da história de violência e silenciamento que marca a trajetória dessas comunidades.

Ao mencionar a Quebra de Xangô, Hildênia situa a restituição dentro de uma história de resistência. O episódio de perseguição ocorrido em Alagoas em 1912 permanece como uma das marcas mais dolorosas da história das religiões de matriz africana no Estado. Nesse contexto, fazer com que vozes, cantos e memórias voltem a circular significa também contribuir para que histórias antes silenciadas possam ser reconhecidas, preservadas e escutadas.

Para a diretora, essa responsabilidade faz parte da própria identidade do Museu: “O Museu, como a casa da gente alagoana, tem essa obrigação de preservar as vozes, as imagens, os objetos ritualísticos e representativos da religião de matriz africana. É papel crucial do MTB, inclusive de letramento para a sociedade”.

A proposta também amplia o debate sobre o papel das instituições de memória na contemporaneidade. Ao possibilitar que as comunidades tenham acesso a registros relacionados à sua própria história, o Museu abre espaço para novas interpretações, novos diálogos e outras formas de produção de conhecimento sobre o patrimônio cultural.

Nesse processo, a participação das comunidades de terreiro é fundamental. São elas que mantêm vivos saberes, práticas, celebrações, cantos e modos de compreender o mundo que constituem parte essencial da diversidade cultural alagoana.

Uma memória que volta a ser ouvida

A presença das comunidades de terreiro no encontro reforça a importância de que os processos de preservação cultural sejam construídos de maneira compartilhada. Nesse sentido, a restituição deixa de ser compreendida apenas como uma ação de devolução de documentos e passa a constituir uma prática de reconhecimento, reparação simbólica e fortalecimento das memórias coletivas.

Ao colocar as comunidades no centro desse processo, o Museu reafirma que preservar não significa apenas guardar. Significa também criar condições para que aquilo que foi registrado possa retornar aos seus contextos de significado, ser reinterpretado por aqueles que reconhecem essas referências como parte de sua história e continuar produzindo sentidos no presente.

Assim, os registros sonoros deixam de ser apenas vestígios de um passado distante. Tornam-se pontes entre gerações, entre a pesquisa e a experiência vivida, entre a instituição e as comunidades. São vozes que atravessaram o tempo e que agora encontram novamente espaço para serem ouvidas.

Programação valoriza cultura afro-alagoana

Além da restituição dos registros sonoros, a programação contará com Abertura Institucional, apresentação do projeto “Coleção Museu Théo Brandão” e uma Mesa de Memórias, dedicada às discussões sobre memória, patrimônio, cultura afro-alagoana e restituição.

O encontro será encerrado com a apresentação do Afoxé Odô Iyá, trazendo para o espaço do Museu a força da música, da ancestralidade e da cultura afro-alagoana.

A programação pretende reunir diferentes vozes em torno de uma pergunta fundamental: como preservar uma memória sem deixar de ouvir aqueles que a mantêm viva?

É a partir dessa perspectiva que o Museu Théo Brandão abre suas portas para um encontro que conecta passado e presente, acervo e comunidade, pesquisa e ancestralidade.

Mais do que apresentar um acervo, o evento propõe escutar, restituir e reencontrar memórias. Propõe reconhecer que, por trás de cada registro, existem pessoas, histórias, experiências e tradições que continuam vivas.

No Museu, essas memórias encontram abrigo. Nas comunidades, encontram continuidade. E, quando voltam a ser ouvidas, reafirmam que preservar também é um ato de resistência.


Serviço:

Evento: Memórias Alagoanas do Axé: Coleção do Museu Théo Brandão

Data: 2 de setembro de 2026

Horário: 16h

Local: Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore – Ufal

Realização: Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Museu Théo Brandão de Antropologia e Folclore e Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proexc).

Programação:


Abertura Institucional

Apresentação do projeto “Coleção Museu Théo Brandão”

Mesa de Memórias – Memória, Patrimônio, Cultura Afro-Alagoana e Restituição

Lançamento Público das Gravações do Museu Théo Brandão

Apresentação do Afoxé Odô Iyá