Geral
Como se rastreia o dinheiro de um golpe: as primeiras 72 horas podem definir se a vítima recuperará os valores
A recuperação de valores perdidos em golpes digitais vai muito além do ajuizamento de uma ação. Em boa parte dos casos, o sucesso da operação se decide nas primeiras horas após a fraude — na preservação correta das provas digitais e na adoção de medidas técnicas capazes de rastrear o caminho percorrido pelo dinheiro.
Embora muitos consumidores procurem um advogado apenas quando acreditam que será necessário ingressar na Justiça, especialistas alertam que os casos de fraude digital exigem conhecimentos que vão além do Direito tradicional. É preciso compreender o funcionamento dos sistemas bancários, dos mecanismos de rastreamento financeiro, da preservação de evidências eletrônicas e, em alguns casos, até da movimentação de ativos em blockchain.
Segundo Danilo Pardi, sócio da Pardi e Morais Advogados e especialista em fraudes digitais, essa é uma das razões pelas quais nem todo profissional está preparado para conduzir esse tipo de demanda. “As fraudes digitais exigem uma atuação multidisciplinar. Não basta conhecer o processo judicial. É necessário entender como o dinheiro circula no sistema financeiro, quais medidas podem ser adotadas imediatamente para tentar bloquear os valores e quais provas precisam ser preservadas antes que desapareçam”, afirma.
Ao contrário de outras ações judiciais, nas quais os fatos costumam permanecer inalterados durante meses ou anos, os golpes digitais envolvem evidências extremamente voláteis. Registros eletrônicos podem ser apagados, contas utilizadas pelos criminosos podem ser encerradas rapidamente e os recursos costumam ser pulverizados entre diversas instituições financeiras em poucas horas.
Na prática, o rastreamento parte do primeiro destino do dinheiro e reconstrói a cadeia conta a conta. Em operações bancárias e via Pix, é possível seguir a transferência de instituição em instituição, identificar as contas de passagem e requerer o bloqueio judicial dos valores que ainda não foram sacados ou convertidos. Quando a fraude envolve criptoativos, o trabalho migra para a análise das transações registradas na blockchain, acompanhando as carteiras utilizadas até os pontos em que os recursos são convertidos de volta para o sistema financeiro tradicional, justamente onde surgem as melhores chances de identificação e recuperação.
“Hoje existem ferramentas capazes de acompanhar o fluxo financeiro de forma bastante detalhada. Em operações bancárias conseguimos reconstruir o caminho do dinheiro entre diferentes contas. Já nas fraudes com criptoativos, utilizamos técnicas específicas para analisar as movimentações na blockchain e identificar os possíveis pontos de conversão dos recursos”, explica.
A preservação das provas é a outra etapa decisiva. Conversas por aplicativos, e-mails, comprovantes de transferência, registros telefônicos e capturas de tela ajudam a reconstruir a dinâmica da fraude e servem de base para os pedidos de bloqueio.
“Muitas vítimas acreditam que basta guardar o comprovante da transferência, mas a documentação necessária costuma ser muito mais ampla. Quanto mais elementos forem preservados desde o início, maior a capacidade de demonstrar como o golpe ocorreu e de identificar o caminho percorrido pelos recursos”, ressalta o advogado.
Esse trabalho, entretanto, dificilmente é realizado apenas pelo advogado. Casos mais complexos costumam reunir profissionais de diferentes áreas para ampliar as possibilidades de localização dos ativos. “Dependendo da complexidade da fraude, atuamos em conjunto com especialistas em tecnologia, peritos em computação forense, analistas financeiros e investigadores. A recuperação de ativos exige uma abordagem integrada, porque as evidências digitais e financeiras precisam ser analisadas de forma coordenada”, observa Pardi.
Para o especialista, um dos maiores equívocos das vítimas é imaginar que existe tempo para decidir. “Muitas pessoas passam dias tentando negociar com os criminosos ou acreditando que o banco resolverá tudo sozinho. Enquanto isso, os recursos continuam circulando e as chances de recuperação diminuem. As primeiras 72 horas costumam ser decisivas para preservar provas, iniciar o rastreamento e adotar as medidas capazes de aumentar as chances de bloqueio dos valores”, conclui.
Embora cada fraude tenha características próprias, Pardi resume que rapidez, documentação adequada e atuação técnica especializada formam o conjunto de fatores que mais influencia a recuperação dos recursos desviados.
Fonte: Assessoria