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Desenrola MEI ajuda a renegociar dívidas, mas não resolve a origem do problema, alerta especialista

10/07/2026
Desenrola MEI ajuda a renegociar dívidas, mas não resolve a origem do problema, alerta especialista

Mais de 3,5 milhões de microempreendedores estão inadimplentes; para Reinaldo Domingos, educação financeira deve ser prioridade para evitar que empresários voltem a se endividar

O lançamento do Desenrola MEI pelo Governo Federal representa uma importante oportunidade para milhares de microempreendedores individuais regularizarem sua situação fiscal. O programa permite renegociar débitos inscritos na Dívida Ativa da União de até R$ 20 mil, com descontos que podem chegar a 70% sobre o valor consolidado da dívida, além de parcelamentos em até 145 meses e parcelas mínimas de R$ 25. A iniciativa contempla cerca de 3,5 milhões de MEIs inadimplentes, de um universo superior a 17 milhões de registros ativos no país.

Embora considere a iniciativa positiva, o PhD em Educação Financeira, presidente da ABEFIN (Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira) e da DSOP Educação Financeira, Reinaldo Domingos, faz um alerta: renegociar dívidas é apenas parte da solução. "O Desenrola MEI é importante porque devolve ao empreendedor a possibilidade de regularizar sua empresa e voltar a acessar crédito. Mas ele combate o efeito da inadimplência, não a sua causa. Se não houver mudança no comportamento financeiro, muitos desses empreendedores voltarão a enfrentar as mesmas dificuldades em pouco tempo."

Segundo o especialista, grande parte dos atuais microempreendedores chegou ao MEI buscando aumentar sua renda e reduzir a elevada carga tributária existente no regime de contratação CLT. Com isso, passaram a atuar como pessoas jurídicas sem, entretanto, receber qualquer preparação para administrar financeiramente um negócio. "Muitos brasileiros abriram um CNPJ porque enxergaram uma oportunidade de ganhar mais ou porque encontraram uma alternativa para reduzir os custos da contratação formal. O problema é que abrir empresa é relativamente simples; administrar uma empresa financeiramente é outra história completamente diferente."

Na avaliação de Domingos, um dos maiores erros cometidos pelos pequenos empreendedores é misturar as finanças pessoais com as da empresa. "O CNPJ acaba funcionando como extensão da conta bancária da família. O dinheiro entra na empresa e rapidamente é utilizado para despesas pessoais. Sem organização, não existe fluxo de caixa que resista."

Além disso, ele observa que muitos MEIs iniciam suas atividades sem conhecer conceitos básicos de gestão, como formação de preço, capital de giro, definição de pró-labore e planejamento tributário. "É comum encontrar empreendedores que trabalham muito, faturam bem, mas não sabem exatamente quanto lucram. Vendem sem calcular corretamente seus custos, retiram dinheiro da empresa quando precisam e acabam descobrindo a inadimplência quando já perderam o controle da operação."

Para o presidente da ABEFIN, a adesão ao programa deve ser acompanhada de uma verdadeira reorganização financeira. Entre as recomendações estão separar as contas da empresa e da família, definir um pró-labore, manter reservas financeiras para o negócio e para a vida pessoal, cumprir rigorosamente as obrigações tributárias e elaborar um orçamento tanto para a empresa quanto para a família.

"Renegociar a dívida é apenas o primeiro passo. O verdadeiro recomeço acontece quando o empreendedor aprende a administrar o dinheiro de forma consciente. Educação financeira não serve apenas para sair da inadimplência; ela evita que o problema volte a acontecer", explica.

Domingos destaca ainda que a educação financeira precisa ser vista como uma política permanente de fortalecimento do empreendedorismo brasileiro. "O Brasil investe cada vez mais em programas de renegociação, mas ainda investe pouco na prevenção. Ensinar o empreendedor a cuidar do dinheiro é muito mais eficiente do que renegociar suas dívidas anos depois. Quando mudamos o comportamento financeiro, fortalecemos não apenas a empresa, mas também a família e toda a economia."

Para o especialista, o Desenrola MEI pode marcar um novo começo para milhões de brasileiros, desde que a renegociação venha acompanhada de mudanças na forma de administrar o negócio. "Quem aproveitar essa oportunidade para reorganizar suas finanças terá muito mais chances de construir uma empresa sustentável e uma vida financeira equilibrada. O parcelamento resolve a dívida de hoje; a educação financeira evita a dívida de amanhã."

Fonte: Assessoria