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Galeria Marco Zero inaugura exposições de Derlon e Mestre Nado, no dia 30 de junho

25/06/2026
Galeria Marco Zero inaugura exposições de Derlon e Mestre Nado, no dia 30 de junho
Fotos: Os Maracás Mestre Nado Dimensões variadas | Adriano Franco

A cultura popular nordestina está imbricada nas produções de Derlon e Mestre Nado, tanto em suas práticas quanto nos fundamentos conceituais. De gerações e vivências distintas, ambos compreendem os saberes do povo como formas coletivas de produção de conhecimento, capazes de forjar sensibilidades, imagens, sons e memórias em permanente expansão. É desse entendimento, que dissolve a oposição entre tradição e contemporaneidade, que nasce o diálogo entre as exposições Das Graças Alcançadas, de Derlon, e Ocarinada, de Mestre Nado, que a Marco Zero inaugura no dia 30 de junho, às 19h, ambas com curadoria de Daniel Donato.

“Minha pesquisa é sobre o povo”, define Derlon. Ao refletir sobre sobre seu trabalho, o artista pernambucano recorre às próprias memórias, mas também a repertórios visuais diversos. São muitas as influências: xilogravura, artistas como Gilvan Samico, J. Borges, muralistas, cordelistas, grafiteiros. Delas emerge uma assinatura própria, em traços originais que evocam um imaginário compartilhado.

Na exposição Das Graças Alcançadas, Derlon apresentará ao público os vários desdobramentos de sua pesquisa, a partir de uma característica forte de sua produção: a multiplicidade de suportes. Com obras em telas, na parede, em objetos e instalação, ele cria um caminho que embaralha espaços físicos e temporalidades. Como aponta o curador Daniel Donato, suas figuras – homens, mulheres, seres fantásticos –, não procuram representar indivíduos específicos, mas uma coletividade, construída a partir da memória da cultura popular nordestina, suas festividades, da religiosidade e dos objetos que atravessam a vida cotidiana.

Um dos pilares da sua pesquisa, as fotopinturas populares são repensadas a partir das técnicas do artista, como o contraste entre o preto e branco e o foco no traço gráfico. Nesses trabalhos, Derlon “subverte o gênero retrato”, pois suas obras “capturam uma comunidade e seus signos”, como aponta o curador.

“Há cerca de uma década pesquiso as fotopinturas que, para mim, além das questões estéticas, também sempre foram importantes por conta do afeto e da memória. Sempre me interessou, para além dos retratos em si, os contextos em que eles estavam inseridos. As fotopinturas também estão muito ligadas à religiosidade, são levadas em procissões, usadas como ex-votos. Essa dimensão sensível ficou muito presente no meu trabalho”, explica Derlon.

A exposição reúne vários trabalhos inéditos, além de uma instalação e um mural feito especialmente para o projeto. Sua produção em torno das fotopinturas será exibida junto à imagens originais garimpadas ao longo dos últimos anos, criando um diálogo entre os seus desenhos e as memórias dos retratados. Também em destaque estarão suas obras em objetos, como oratórios, jarras e moringas. A obra “Graças Alcançadas”, instalação que inspirou o título da exposição, reúne na entrada da galeria cerca de 30 ex-votos de madeiras, pintados de branco, sobre os quais o artista escreveu frases de agradecimento.

“Quando trabalho com objetos, tenho a preocupação de que eles não pareçam customizados. Me interessa que a intervenção seja feita para aquele objeto, como se a silhueta dele sempre tivesse sido pensada para aquela imagem. Ao mesmo tempo, também busco objetos que carreguem a ideia de memória, que possam ser encontrados em casas populares”, enfatiza.


Se Derlon transforma a memória coletiva em imagem, Mestre Nado (Agnaldo da Silva) modela o próprio som. Reconhecido por sua produção de ocarinas, o artista pernambucano apresenta esculturas cuja matéria não é apenas a argila, mas também o ar que percorre seus interiores. Em Ocarinada, décadas de experimentação convergem em obras que dissolvem as fronteiras entre instrumento musical, escultura e objeto utilitário.

O neologismo que dá título à exposição, segundo Daniel Donato, "sugere tanto um coletivo de ocarinas quanto o eco do som produzido por suas esculturas". As peças preservam a funcionalidade dos instrumentos ao mesmo tempo que expandem suas possibilidades formais. É o caso da série A forma do som, na qual as ocarinas se encontram e se acoplam, formando organismos que evocam animais fantásticos ou vários deles reunidos, como em corais. Também é o caso de obras como Foguete e Torres de Instrumentos I e II, que, mesmo sem modificar estruturalmente as ocarinas, transformam-nas em esculturas sonoras cuja principal matéria é o próprio som.


Patrimônio Vivo de Pernambuco, Mestre Nado construiu uma trajetória que atravessa diferentes momentos da produção cerâmica pernambucana, das olarias tradicionais ao trabalho ao lado de Francisco Brennand, sempre marcada pelo aprofundamento de um conhecimento técnico desenvolvido pela experiência. Especialmente para a exposição, executou os painéis da série Oleiros, cujos desenhos haviam sido realizados entre 1984 e 1986. Neles, o artista compartilha suas observações sobre as transformações do próprio ofício.

“Sempre gostei de criar. Há muito tempo, desde o trabalho em fábrica, com Brennand, crio encaixes para os objetos, que acabam se transformando em outras coisas. O resultado final, muitas vezes, nem dá para definir o que é. Esse mistério me interessa muito. Por isso adoro o trabalho com a cor, de ver o barro se transformando com a queima, o que sai desse processo natural. E tem também a coisa da música: para mim a pesquisa é uma coisa só, tanto de fazer o objeto quanto de tocar, é um entrelaçado”, conta Mestre Nado.


Serviço:

Exposições Das Graças Alcançadas, de Derlon, e Ocarinada, de Mestre Nado

Galeria Marco Zero - Av. Domingos Ferreira, 3393, Boa Viagem

Abertura: 30 de junho de 2026, às 19h

Visitação: 1º a 31 de julho de 2026

Horários: de terça a sexta-feira, das 10h às 19h; sábados e feriados, das 10h às 17h

Informações: (81) 98262-3393 | www.galeriamarcozero.com | @galeriamarcozero

Fonte: Assessoria