Geral

Startup transforma pesquisa científica em solução para testes toxicológicos

12/05/2026
Startup transforma pesquisa científica em solução para testes toxicológicos
Fotos: Empresa fundada por pós-doutora pela Ufal nasceu no ambiente acadêmico, avança com programas de inovação e reforça o papel estratégico da Universidade entre ciência, mercado e sociedade | Assessoria

Por Manuella Soares

Da bancada do laboratório ao mercado de biotecnologia, a NexusBioTox é um exemplo de como a pesquisa científica desenvolvida em ambiente universitário pode se transformar em solução concreta para demandas da indústria e da sociedade. Fundada pela pesquisadora Jerusa Maria de Oliveira Amorim, a startup atua com testes toxicológicos por métodos alternativos, com aplicações potenciais nas áreas farmacêutica, cosmética, agroquímica, ambiental e de nanotecnologia.

A proposta da empresa é oferecer avaliações de segurança mais rápidas, éticas e economicamente viáveis, antecipando riscos em novos produtos antes que empresas invistam anos e altos recursos em etapas avançadas de desenvolvimento. Jerusa lembra que a NexusBioTox nasceu de uma percepção construída dentro da própria rotina científica. “Eu percebi que aquilo que eu já fazia diariamente no laboratório poderia ser exatamente a solução que empresas e outros pesquisadores estavam buscando”, disse.

A ideia começou a ganhar forma quando Jerusa passou a enxergar a ciência também como uma possibilidade de entrega de valor ao mercado. Segundo ela, durante muito tempo existia a noção de que startup estava associada apenas à tecnologia digital ou ao desenvolvimento de softwares. Essa visão mudou após o contato com uma formação voltada à criação de startups em biotecnologia.

“A percepção de que a pesquisa poderia se tornar um negócio ocorreu ao notar o gargalo industrial nos testes de segurança e a oportunidade de substituir modelos tradicionais por alternativas sustentáveis e precisas”, afirma a pesquisadora. O avanço do projeto contou com a parceria do professor Lucas Anhezini (ICBS/Ufal) e da professora Anielle Christine, atualmente vinculada à Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que acreditaram na proposta desde a fase inicial.

O salto definitivo veio com a participação no programa Startup Nordeste, onde a equipe validou produtos mínimos viáveis, chamados MVPs, e conquistou o primeiro cliente pagante. Para Jerusa, esse processo exigiu uma mudança de mentalidade: “Foi um processo intenso de aprendizado, que exigiu desconstruir a forma como eu via a ciência, restrita à academia, para reconstruí-la dentro da lógica do mercado”.

Testes mais rápidos, éticos e sustentáveis

A NexusBioTox atua em uma área conhecida como toxicologia alternativa. Na prática, trata-se do uso de métodos que substituem, reduzem ou refinam o uso de animais vertebrados em testes laboratoriais, seguindo os princípios internacionais dos 3Rs: Replacement (substituição), Reduction (redução) e Refinement (refinamento).

A startup utiliza modelos biológicos alternativos, como o zebrafish, conhecido como peixe-zebra, e a Drosophila, popularmente chamada de mosca-das-frutas. Jerusa explica que esses organismos apresentam similaridade genética relevante com humanos e permitem observar efeitos biológicos com maior rapidez, antes da necessidade de avançar para modelos animais mais complexos.

“A toxicologia alternativa é uma forma mais inteligente, rápida e ética de avaliar a segurança de produtos”, resume. Segundo a pesquisadora, a proposta da startup é antecipar riscos e fornecer dados de segurança mais robustos ainda nas fases iniciais do desenvolvimento.

Entre os diferenciais apontados pela equipe estão a redução de tempo, a economia e o alinhamento aos princípios éticos. A promessa é entregar resultados em seis a sete meses, enquanto métodos tradicionais podem levar anos, além de possibilitar economia de até 80% de custo por composto.

Ciência aplicada para diferentes setores

O trabalho da NexusBioTox dialoga com diferentes segmentos que dependem de testes de segurança para desenvolver produtos e tecnologias. Na área farmacêutica, os métodos podem apoiar a triagem inicial de novos compostos e candidatos terapêuticos. No setor cosmético, contribuem para avaliações mais alinhadas a práticas éticas e sustentáveis. Já nos campos agroquímico, ambiental e de nanotecnologia, a startup oferece caminhos para investigar impactos biológicos e riscos associados a novos materiais, formulações e substâncias.

Para a professora Anielle Christine, a empresa chega por meio de uma lacuna no mercado. “Apesar do avanço no uso de nanomateriais, não havia no mercado brasileiro empresas especializadas em avaliação toxicológica com modelos alternativos, considerando variáveis como tamanho, forma e composição, que impactam diretamente a toxicidade”, explica.


A solução, segundo ela, foi desenvolver protocolos padronizados, com base acadêmica, rigor científico e reprodutibilidade. “Esses métodos são adaptados às exigências regulatórias e convertidos em soluções aplicáveis ao mercado”, afirma Anielle.

Ufal como ambiente de origem e amadurecimento

A relação com a Universidade Federal de Alagoas é um dos eixos centrais da história da NexusBioTox. A startup se desenvolveu a partir da integração entre pesquisa acadêmica, infraestrutura laboratorial, formação de recursos humanos e programas de incentivo à inovação.

Para o professor Lucas Anhezini, a Ufal foi fundamental para o amadurecimento da empresa, atuando como ambiente de origem científica, validação tecnológica e formação empreendedora. “A startup nasceu da convergência entre pesquisa acadêmica e visão de inovação aplicada”, afirma.


Lucas coordena desde 2018 o Laboratório de Análise in vivo da Toxicidade e Doenças Neurodegenerativas (Lavitox). Ele relata que a parceria com Jerusa permitiu desenvolver protocolos científicos, formar estudantes de iniciação científica e publicar artigos sobre toxicidade de nanopartículas em Drosophila.

“Nessa jornada científica sempre conversamos sobre a possibilidade de transformar em serviço o que fazíamos no laboratório de pesquisa. A existência de estruturas como a incubadora da universidade e políticas de incentivo ao empreendedorismo tecnológico ajudaram a transformar uma iniciativa de pesquisa em um modelo de negócio estruturado”, lembra.

De acordo com Lucas, a infraestrutura da Ufal foi decisiva para os primeiros passos. O acesso a laboratórios especializados, plataformas analíticas, ambientes de experimentação e ao biotério de Drosophila permitiu que as validações iniciais fossem realizadas com elevado padrão científico. Com o crescimento da empresa, surgiu também a necessidade de espaço próprio. Segundo Jerusa, com apoio institucional, a startup recebeu a cessão de um galpão de 90 m² no Campus de Engenharias e Ciências Agrárias (Ceca/Ufal), onde estruturou quatro unidades laboratoriais.

Colaboração, formação e inovação contínua

A NexusBioTox também se fortalece pela presença de estudantes, pesquisadores e orientandos vinculados à Ufal e a programas de pós-graduação. Essa aproximação mantém a empresa conectada à fronteira do conhecimento e cria oportunidades de formação prática em pesquisa, desenvolvimento e empreendedorismo.

“A Universidade contribui com capital intelectual e a empresa oferece um ambiente de inovação aplicada e formação empreendedora”, destaca Anhezini.

Jerusa reforça essa visão ao afirmar que os estudantes e pesquisadores são “o motor da inovação”. Atualmente, a equipe reúne perfis multidisciplinares, com atuação em biologia, física, zootecnia, farmácia e áreas correlatas, além da participação de estudantes de graduação, mestrado e doutorado em projetos de pesquisa e desenvolvimento, incluindo pesquisadores da Rede Nordeste de Biotecnologia (Renorbio) e, agora, da UFU, sob orientação da professora Anielle.

Ciência e visão de mercado

Um dos desafios de uma startup de base científica é equilibrar exigências regulatórias, rigor acadêmico e viabilidade comercial. Os pesquisadores apontam que na NexusBioTox, esse equilíbrio é construído com responsabilidade.

“Nossa base acadêmica garante rigor científico, com protocolos padronizados, controle de qualidade e reprodutibilidade, práticas que já faziam parte da nossa rotina de pesquisa”, afirma Jerusa. Ela explica que a empresa não entrega apenas um laudo, mas uma orientação técnica capaz de apoiar decisões de empresas e pesquisadores. “Traduzimos esses dados em valor para o cliente”, completa.


Para Lucas, a estratégia da startup é translacional: cada etapa da pesquisa é planejada para gerar evidência científica robusta, sem perder de vista a aplicação regulatória e o potencial de mercado. “Esse equilíbrio é essencial para transformar inovação acadêmica em soluções competitivas e aplicáveis”, destaca.

Próximos passos: validação, escala e novas parcerias

Para este ano de 2026, a startup mira validação, escala e ampliação de parcerias. A NexusBioTox pretende consolidar seu portfólio tecnológico, expandir a carteira de clientes e avançar no processo de adequação e certificação de seus laboratórios para atendimento às exigências normativas.

Jerusa destaca que a empresa também foi selecionada para incubação no Porto Digital, em Recife, um dos principais ambientes de inovação do país. O processo funcionará como programa de aceleração e vitrine para a startup, sem transferência da estrutura física que está no Ceca/Ufal. “Nosso objetivo é claro: mostrar que a ciência desenvolvida em Alagoas pode liderar o mercado nacional”, afirma.

Ao mesmo tempo, a Ufal segue como parceira estratégica. “contribuindo para a formação científica, desenvolvimento tecnológico e manutenção do ecossistema de inovação que sustenta o crescimento da NexusBioTox”, reforça a professora Anielle, que também colabora na expansão para Minas Gerais via UFU.

Para a equipe, a NexusBioTox mostra que a ciência feita na Universidade pode ultrapassar os muros acadêmicos, gerar soluções para problemas reais e abrir novas perspectivas para a bioeconomia, a saúde, o meio ambiente e a indústria brasileira.

“Nossa perspectiva para os próximos anos é aprofundar ainda mais essa integração universidade-empresa como eixo estruturante do crescimento e da consolidação da NexusBioTox no setor de biotecnologia”, projetou o professor Lucas.