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Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública junto ao Datafolha aponta que 41,2% da população percebe presença do crime organizado onde mora

11/05/2026
Pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública junto ao Datafolha aponta que 41,2% da população percebe presença do crime organizado onde mora

O crime organizado deixou de ser percebido como fenômeno restrito a áreas específicas e passou a ser reconhecido como parte da vida cotidiana de milhões de brasileiros. É o que aponta a pesquisa Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) ao Instituto Datafolha. Os resultados revelam que 41,2% da população com 16 anos ou mais, o equivalente a 68,7 milhões de pessoas, afirmam que há presença de facções ou milícias em seus bairros. Nas capitais, esse índice sobe para 55,9%.

Os dados mostram ainda que, mais do que presença, esses grupos exercem influência direta sobre a vida local. Para 61,4% dos entrevistados (cerca de 42,2 milhões de pessoas), o crime organizado interfere fortemente (34,9%) ou moderadamente (26,5%) nas regras de convivência, funcionando como uma espécie de poder paralelo que regula normas e comportamentos.

O estudo foi elaborado para tentar compreender o impacto dessas dinâmicas criminais nas eleições de 2026, em que o debate sobre Segurança Pública aparece como uma das principais preocupações dos brasileiros. A partir dos resultados da pesquisa, o FBSP destaca a importância de os candidatos recolocarem a proteção da vida e a redução da violência letal como prioridades, enfrentar o crime organizado para além do tráfico de drogas, com atenção especial à retomada de territórios, combater roubos e fraudes digitais que hoje são os maiores medos da população e incorporar a proteção das mulheres e grupos vulneráveis como eixo estruturante da segurança pública.

“O debate eleitoral precisa ir além das discussões sobre medidas repressivas ou investimentos do Estado. Os resultados dessa pesquisa reforçam a importância de os candidatos incorporarem em seus planos de governo estratégias de proteção social e reconstrução da confiança comunitária”, aponta o diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima. “A pesquisa foi pensada com o intuito de oferecer um diagnóstico que possa embasar uma agenda programática para a segurança pública nas eleições deste ano”, complementa a diretora-executiva Samira Bueno.

Medo e mudança de comportamento

Essa percepção se traduz em medo quase universal: 96,2% dos brasileiros relatam receio ante ao menos uma situação de violência. Golpes digitais, roubo à mão armada e morte durante assalto foram os maiores medos apontados. “Esse sentimento não se restringe a grupos específicos nem a experiências isoladas, mas estrutura a relação dos indivíduos com o espaço urbano, com seus bens, com o próprio corpo e com o ambiente digital”, observa Samira Bueno.

Os dados indicam que a principal resposta social ao medo não é o recolhimento absoluto, mas a gestão cotidiana do risco. As mudanças mais frequentes são mudar um percurso rotineiro (36,5%), deixar de sair à noite (35,6%) e deixar de sair com o celular (33,5%).

Entre os entrevistados que afirmaram viver em bairros com a presença de grupos criminosos organizados, 81,0% têm medo de ficar no meio de confronto armado, 74,9% evitam frequentar certos locais, 71,1% temem que um familiar se envolva com o tráfico, 65,2% evitam circular em determinados horários, 64,4% têm medo de sofrer represálias por denunciar crimes e 59,5% evitam falar sobre política.

Os resultados indicam que o crime organizado é percebido como uma forma de poder local, regulando normas e comportamentos. “O medo e a violência não apenas afetam a segurança, mas também reorganizam a vida cotidiana, corroem o consumo, limitam a mobilidade e fragilizam a sensação de normalidade”, destaca Renato Sérgio de Lima.

Vitimização

Um percentual de 40,1% dos entrevistados afirma que tiveram alguma experiência direta ou indireta com o crime e a violência, o equivalente a 66,8 milhões de pessoas. Ser vítima de um golpe e ter perdido dinheiro pela internet ou celular nos últimos 12 meses foi a situação mais vivenciada pelo brasileiro, com 15,8%, o que corresponde a cerca de 26,3 milhões de pessoas. A segunda situação com maior frequência é a de quem “teve algum familiar ou conhecido assassinado”, com 13,1% ou aproximadamente de 21,9 milhões de pessoas, e a terceira foi ter sido “vítima de fraude/desvio de recursos de aplicativos bancários ou PIX”, com 12,4%, o equivalente a cerca de 20,7 milhões de pessoas.

Cruzando os dados sobre a percepção da presença de facções na localidade onde residem com os de vitimização, nota-se uma grande discrepância nas respostas de moradores de bairros onde se observa atuação territorial dessas organizações em relação aos locais onde essa presença não é percebida. Enquanto a média geral dos que dizem ter sido vítimas de alguma forma de violência nos últimos 12 meses é de 40,1%, entre os que residem em bairros com presença de facções ou milícias esse índice é de 51,1%. Ou seja, a presença percebida de crime organizado no bairro aparece associada a um salto de 11 pontos percentuais na vitimização geral.

As diferenças mais significativas aparecem em um conjunto de experiências que combina crime patrimonial, violência letal indireta e violência interpessoal. Entre quem mora em bairros com a presença do crime organizado, a proporção dos que relatam fraude/desvio de recursos de seus aplicativos ou contas sobe de 12,4% para 16,6%; a dos que dizem ter sido vítima de golpe e perdido dinheiro vai de cerca de 15,8% para 21,4%; e a dos que afirmam ter algum familiar ou conhecido assassinado passa de 13,1% para 17,6%. Também cresce a proporção dos que dizem que foram ou tiveram algum conhecido vítima de bala perdida, de 9,7% para 13,3%.

Diferenças semelhantes foram registradas em situações como celular furtado ou roubado, roubos ou assaltos na rua, assaltos à mão armada e residência invadida ou arrombada. Há ainda aumento no indicador de quem teve algum familiar ou conhecido morto durante assalto, de 6,2% para 8,8%. Esses dados confrontam a ideia muitas vezes difundida de que o crime organizado zela pela segurança das comunidades onde atua.

Gênero e classe

As diferenças de gênero e classe social também são marcantes. Mulheres relatam mais medo em todas as situações, especialmente em relação à violência sexual e doméstica, enquanto homens aparecem mais vitimizados em crimes patrimoniais e de rua. Já as classes D/E estão mais expostas à violência interpessoal e territorial, enquanto as classes A/B sofrem mais com fraudes digitais e financeiras.

O estudo mostra que o medo não é abstrato, mas baseado em experiências concretas, e que a violência, direta ou indireta, tornou-se elemento estruturante da vida urbana no Brasil. “Os resultados indicam que o crime organizado é percebido como uma força reguladora da vida local, capaz de moldar comportamentos, corroer o consumo, limitar a mobilidade e fragilizar a sensação de normalidade”, avalia Samira Bueno.

Agenda programática

O estudo elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública propõe a adoção de uma agenda programática aos candidatos que disputam a eleição de 2026, a partir das seguintes diretrizes:

1- Em primeiro lugar, proteger a vida e reduzir a violência letal precisa voltar ao centro do debate público. Isso significa recolocar homicídios, feminicídios e mortes decorrentes de intervenções policiais como prioridade política, com foco territorial, metas claras e capacidade investigativa, especialmente nos contextos em que a ameaça à vida se tornou uma experiência cotidiana.

2- Ao mesmo tempo, a agenda de 2026 precisará enfrentar o crime organizado como um fenômeno que não se limita ao tráfico de drogas, mas que se expressa no controle de territórios nos quais vivem milhões de brasileiros, na infiltração na economia formal, na regulação de mercados ilícitos e lícitos, e na corrosão da autoridade pública. E, para tanto, a solução não é o enfrentamento violento em territórios vulneráveis, mas inteligência, coordenação federativa, investigação e controle de fluxos financeiros e presença estatal contínua nos bairros mais vulneráveis de cidades de todos os portes, assim como de fronteiras e territórios com infraestrutura estratégica, como portos e aeroportos.

3- O crime patrimonial também precisa estar no centro do debate. Proteger o cidadão na rua contra roubos, furtos e assaltos à mão armada é condição básica para restabelecer as condições mínimas para que circular no espaço público, trabalhar, estudar e até mesmo denunciar crimes deixem de ser atividades condicionadas pelo medo. Da mesma forma, é necessário que o Estado brasileiro compreenda que a gramática do crime e da violência mudou significativamente na última década, adicionando novos problemas a desafios com os quais já convivemos há tempos: golpes e fraudes digitais que resultam em prejuízo financeiro representam o maior medo do brasileiro, mas também o crime que mais vitimou a população no último ano, atingindo a renda das pessoas, mas também gerando medo e humilhação. Assim, seja na rua, seja na tela, o poder público precisa oferecer respostas concretas para as múltiplas dinâmicas que tem impactado no patrimônio da população.

4- Por fim, nenhuma agenda eleitoral será consistente se não incorporar a proteção das mulheres e outros grupos vulneráveis. A violência que atravessa o lar, as relações íntimas e a vida familiar precisa ser tratada como um problema estrutural da segurança pública.

Acesse o estudo completo aqui

Fonte: Assessoria