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Endividamento pressiona famílias e exige mudança de comportamento financeiro para sair do ciclo de dívidas
O endividamento segue como uma das principais preocupações dos brasileiros. Hoje, dois em cada três têm algum tipo de dívida e uma parcela relevante já enfrenta atrasos, segundo levantamento do Datafolha. O cenário reflete um orçamento cada vez mais pressionado, em que o crédito deixou de ser apoio pontual e passou a funcionar como complemento da renda.
Para especialistas, o problema vai além dos números e exige uma mudança mais profunda na forma como as pessoas lidam com o dinheiro. “Estamos vivendo um ciclo contínuo de desajuste financeiro. A renda não acompanha o custo de vida, e o crédito, quando mal utilizado, se transforma em um agravante. Sem mudança de comportamento, a inadimplência tende a se repetir”, afirma Reinaldo Domingos, PhD em Educação Financeira e presidente da Abefin.
Ele reforça que o endividamento não surge de forma repentina, mas é construído ao longo do tempo, muitas vezes por decisões pequenas e recorrentes, feitas sem planejamento.
Mais do que pagar dívidas, é preciso reorganizar a vida financeira
Segundo Domingos, sair da inadimplência não significa apenas quitar débitos, mas reorganizar toda a relação com o dinheiro. E isso começa por um passo essencial: o diagnóstico financeiro. “O primeiro movimento é entender a realidade. Listar todas as dívidas, saber exatamente quanto se deve, para quem se deve e quais são os juros. Sem isso, qualquer decisão será feita no escuro”, explica.
A partir desse mapeamento, a orientação é priorizar dívidas com juros mais altos, como cartão de crédito e cheque especial, ao mesmo tempo em que se preservam despesas essenciais, como moradia, alimentação e serviços básicos.
Outro ponto central é o controle dos gastos. Registrar todas as despesas por um período mínimo de 30 dias permite identificar padrões de consumo, eliminar excessos e criar espaço no orçamento. “Não existe ajuste financeiro sem clareza. Muitas pessoas acreditam que não têm margem, mas ao registrar os gastos percebem oportunidades reais de reorganização”, afirma.
Negociação consciente e decisões sustentáveis
Com o diagnóstico em mãos, a negociação com credores passa a ser mais estratégica. O especialista alerta que acordos feitos sem planejamento tendem a fracassar. “Não adianta negociar por impulso. A parcela precisa caber no orçamento. Caso contrário, a pessoa troca uma dívida por outra e permanece no mesmo ciclo”, diz.
Em alguns casos, a reorganização das dívidas em linhas com juros menores pode ser uma alternativa, desde que feita com critério e dentro de um plano estruturado.
FGTS exige cautela e planejamento
Diante da pressão financeira, o Governo Federal estuda uma proposta para a população poder usar o FGTS como solução imediata. No entanto, Domingos alerta que, caso essa proposta avance, essa decisão deve ser tomada com muito cuidado.
“O FGTS não pode ser visto como solução fácil. Ele é uma reserva estratégica. Se for utilizado sem mudança de comportamento, o problema volta, e a pessoa ainda perde uma proteção importante”, afirma. Segundo ele, o uso do recurso só faz sentido quando está inserido em um plano consistente de reorganização financeira, que inclua controle de gastos e mudança de hábitos.
Reserva e mudança de hábitos são decisivas
Outro ponto defendido pelo especialista é a construção de uma reserva financeira, mesmo que pequena, como forma de evitar novos ciclos de endividamento. “Sem reserva, qualquer imprevisto vira dívida. E isso mantém a pessoa presa ao crédito”, explica.
Além disso, ele destaca a importância de alinhar consumo aos objetivos de vida, evitando decisões impulsivas e criando uma relação mais consciente com o dinheiro.
Para Domingos, a solução estrutural passa pela educação financeira. “Não se trata apenas de pagar contas, mas de aprender a lidar com o dinheiro de forma sustentável. Sem isso, o problema sempre volta”, conclui.
Em um cenário de pressão crescente sobre o orçamento das famílias, a saída não está em soluções rápidas, mas em método, disciplina e mudança de comportamento — fatores que determinam não apenas a quitação das dívidas, mas a construção de uma vida financeira mais equilibrada no longo prazo.
Ascom Abefin