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Militar alagoana usa o amor pelos livros para construir uma rede de incentivo à leitura
George Amorim
“Ler é um dos meios de saber se a gente existe”. A frase, escrita por Clarice Lispector em uma crônica publicada no Jornal do Brasil, reflete o sentimento de uma policial militar alagoana que encontrou nos livros a maneira de reinventar sua caminhada. Com entusiasmo, Janaína Moura idealizou um clube de leitura para criar conexões e incentivar o consumo literário.
Natural de Palmeira dos Índios e com 16 anos de serviços prestados à Polícia Militar de Alagoas, Janaína é a quinta personagem da série de reportagens “Além da farda”, iniciativa que destaca policiais dedicados a atividades culturais e outros hobbies, revelando à sociedade um lado humano e pouco difundido da tropa alagoana.
A relação entre a militar e a literatura
Foi ainda na infância que o interesse de Janaína pela leitura começou a despertar. Acompanhada pelo pai e por uma das irmãs, ela costumava frequentar sebos, espaços dedicados à comercialização de livros usados. Lá, a policial lembra que sentava em um dos banquinhos para folhear os gibis que ficavam nas estantes. Com o incentivo do pai, descobriu que os exemplares, mesmo aqueles já manuseados, permitiam novas descobertas através do olhar de quem os lia. Desde então, foram centenas de obras exploradas em diferentes fases da vida.
“De maneira geral, tenho no romance o meu gênero de conforto. Porém, sempre busco explorar novas possibilidades e estilos de escrita. Cada livro representa um momento importante. Um exemplo é a obra ‘A Marca de uma Lágrima’ que, embora eu tenha lido há muito tempo, ocupa um espaço especial em minha memória por marcar a transição das leituras de infância para a adolescência”, destacou a leitora.
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No entanto, a sargento começou a perceber que não bastava apenas ler e refletir sobre as histórias de forma individual. Foi assim que, há dois anos, Janaína decidiu criar um perfil nas redes sociais que viria a ser o embrião do seu projeto atual.
“Mesmo que o conteúdo linguístico seja o mesmo, cada pessoa tem sua própria interpretação dos fatos narrados. Como meu ciclo imediato de amigos não costumava ler com a mesma frequência que eu, resolvi criar um perfil nas redes sociais e participar de encontros online. Em 2024, tomei coragem para formar meu próprio clube. Embora já tivesse frequentado outros em Maceió, sempre tive o sonho de organizar um”, relembrou a militar.
Segundo Janaína, o Clube Próxima Página é aberto a todos os interessados. Os integrantes promovem encontros presenciais a cada dois meses, permitindo que os participantes conciliem compromissos pessoais e profissionais com a rotina de leitura. O planejamento é definido sempre no ano anterior.
“A escolha da lista é subjetiva e depende da temática que queremos abordar. Eu monto um cronograma anual; para 2026, já selecionei seis livros. Para que todos mantenham o mesmo ritmo, criei um cronograma semanal para que, no dia do encontro, todos tenham finalizado a obra”, pontuou a sargento.
Os livros como refúgio
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Para Janaína, a leitura vai além de um simples hobby. Foram os livros que deram a ela o suporte necessário para superar um dos maiores desafios de sua vida. Diagnosticada com câncer em 2025, a policial encontrou nas páginas e nos encontros do seu clube a força para enfrentar a doença.
“Os livros foram meus maiores companheiros entre o diagnóstico e o tratamento. As leituras me deram ânimo e coragem para enfrentar as sessões de quimioterapia e radioterapia. O tratamento nos deixa muito debilitados, e a rotina do Próxima Página me incentivava a reagir contra aquele quadro de fragilidade”, relembrou.
Além do desafio médico, as obras auxiliaram a sargento a estabelecer uma rotina mais organizada. “A leitura é, sem dúvida, uma ferramenta de mudança. Ajudou-me a ter mais disciplina e me afastou das telas. Mesmo de folga, busco evitar as redes sociais para focar nos livros”, descreveu.
A prática também acabou virando pauta no ambiente de trabalho. Lotada na Academia de Polícia Militar Arnon de Mello, onde auxilia na execução de cursos de especialização e formação, Janaína discute com os colegas como algumas obras descrevem a atuação policial.
“Os livros são um universo onde todos os assuntos podem ser discutidos, inclusive a atividade policial. Sempre que possível, gosto de trocar experiências com meus companheiros de farda sobre segurança pública. Recentemente, debatemos a temática explorada no livro ‘O Avesso da Pele’. Com isso, alguns militares já passaram a frequentar o clube”, enfatizou Janaína.
Planos para os próximos capítulos
Além de consolidar e expandir seu projeto de incentivo à leitura, a sargento Janaína Moura sonha em passar para o outro lado das páginas e se tornar a autora das histórias.
“Eu tinha o hábito de escrever poemas quando era mais nova, mas isso ficou adormecido por um tempo. Para o futuro, quem sabe eu não possa lançar um romance que conte parte da trajetória que vivi. Para o primeiro capítulo, já tenho até um título: 'Eu venci'”, planejou a militar.