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Passarela autoral ao ar livre enaltece artesanato alagoano em espetáculo de identidade, inovação e criatividade

22/03/2026
Passarela autoral ao ar livre enaltece artesanato alagoano em espetáculo de identidade, inovação e criatividade
Fotos: Desfile reúne novos olhares sobre o feito à mão, consolidando Artnor como vitrine estratégica para artesãos e pequenos negócios | Assessoria

Não foi apenas um desfile. Foi um movimento.
Na escadaria da Associação Comercial de Maceió, no coração do Jaraguá, o artesanato alagoano ganhou corpo, movimento e protagonismo. Diante de um público atento, que ocupou todos os espaços disponíveis, a Artnor 2026 apresentou, na noite deste sábado (21), uma passarela que foi, ao mesmo tempo, celebração, afirmação e reposicionamento de um setor que cresce, se reinventa e busca novos mercados.

Os trâmites seguiram o rigor de um desfile de moda convencional. Cada detalhe, das cores às modelagens, passando pelos materiais e acabamentos, revelava não apenas estética, mas intenção. Nos bastidores, o clima era de intensidade. Ansiedade, correria e entusiasmo se misturavam enquanto estilistas e artesãs faziam os últimos ajustes com precisão e afeto. Cada peça carrega histórias, memórias e saberes acumulados ao longo de uma vida inteira.

Na passarela, as criações apontavam caminhos, antecipando tendências e mostrando que o artesanato também dita o que será visto e usado nas próximas estações. Quando as primeiras produções surgiram, o impacto foi imediato. Bordados à mão, filé, rendas, acessórios feitos com mariscos, patchwork, pinturas e fibras naturais ganharam leitura contemporânea, ocupando um espaço historicamente reservado à moda convencional, agora ressignificando esse espaço e afirmando um novo conceito.


Com o tema “Onde redes florescem e bordam o futuro”, o desfile reuniu um line-up composto por apresentações, que conectam marcas autorais e grupos produtivos acompanhados pelo Sebrae. São elas: Grupo Produtivo Mão à Mão e Fulô.a; Mãos de Fátima e Saíra Sete Cores; Grupo Luart; Beliê; Pontos & Contos; Grupo Renda-se Encantamentos do Filé; Grupo Borogodó; Tecelãs.mcz; e Inbordal.

Diversidade e beleza nas passarelas

O que se viu na passarela foi diversidade em sua forma mais genuína. O casting rompeu padrões e trouxe para o desfile diferentes corpos, idades e identidades: jovens, pessoas 60+, representantes da comunidade LGBTQIA+ e convidados que representavam a própria vivência com o artesanato. Até o universo pet esteve representado: um cachorro entrou em cena com seu tutor, também vestido com um adorno artesanal, arrancando aplausos e reforçando o caráter afetivo e acessível da proposta.

A empresária e produtora cultural Karina Liberal, que desfilou pela Inbordal, destacou a força desse encontro entre arte e identidade. “É uma honra estar aqui representando mulheres tão incríveis, que vivem do que fazem e mantêm viva essa renda tão bonita”, ressaltou emocionada.

Já a empreendedora, Cacilda Sampaio ressaltou o impacto do evento para o reconhecimento do artesanato alagoano. “A Artnor é uma referência. Nas minhas redes sociais, as pessoas querem saber de onde vêm as peças que eu estou fotografando, se interessam, valorizam. É um trabalho construído com muito cuidado e talento” disse Cacilda, que também é influencer e desfilou para as marcas Da Rosa e Grupo Luart.

Artesanato tendência

Se antes o artesanato era associado principalmente ao turismo ou à decoração, hoje ele ocupa um novo lugar: o da moda e do consumo contemporâneo.
A proposta do desfile da Artnor dialoga diretamente com essa transformação. As peças apresentadas não foram criadas apenas para a passarela, mas pensadas como produtos comercializáveis, organizados em coleções e inseridos em uma lógica de mercado. Esse movimento acompanha a realidade do setor, onde os microempreendedores representam a grande maioria dos negócios da moda em Alagoas.


Nesse contexto, o Sebrae atua de forma estratégica na estruturação do segmento, oferecendo consultorias, capacitações e iniciativas como o Borogodó Lab, que apoiam os artesãos no desenvolvimento de produtos, na construção de coleções e na ampliação do acesso a novos mercados.

Para a analista do Sebrae Alagoas, Marina Gatto, o desfile é uma extensão estratégica deste trabalho. “O desfile amplia a visibilidade do artesanato e mostra que essas peças podem ocupar outros espaços, como a moda e o cotidiano. É uma forma de conectar o trabalho dos artesãos a novos mercados e oportunidades.”

A ação também impacta diretamente quem produz. Mentora do Instituto Bordado Filé, o Inbordal, a artesã Petrúcia Lopes reforça o significado desse reconhecimento. “A Artnor é o maior evento de artesanato do nosso estado e, para a gente, é um prazer estar aqui representando tantas mulheres que vivem do filé. Esse trabalho é mais do que uma técnica, é um legado. O filé não é só arte, é vida.”

A diretora do Sebrae Alagoas, Juliana Almeida, destacou que esse movimento fortalece não apenas a cultura, mas também a economia. “O artesanato é conhecimento, é história e é um ativo econômico importante. Quando ele ganha visibilidade em um espaço como esse, a gente amplia o olhar sobre o seu valor e fortalece os pequenos negócios”, disse a diretora que acompanhou o desfile de perto.


O novo lugar do artesanato

Ao ocupar a passarela, o artesanato alagoano passa a conquistar também um novo espaço no imaginário do público e, principalmente, no mercado. Para o estilista da Foz e consultor do Sebrae no programa Borogodó Lab, Antonio Castro, esse movimento é essencial para garantir a permanência e a relevância dessas técnicas no cenário contemporâneo.

“O artesanato sempre foi a materialização da nossa cultura, mas o mercado muda o tempo todo. O desafio é entender como essas técnicas podem continuar existindo dentro da realidade de consumo atual. Quando a gente leva o artesanato para a moda, a gente amplia esse alcance e cria novas possibilidades de mercado.”

Segundo ele, iniciativas como o desfile da Artnor cumprem um papel que vai além da visibilidade, atuando também na formação de novos olhares e na valorização do próprio fazer artesanal.

“Existe um processo didático muito importante quando o artesanato é colocado em outro contexto, como a passarela. Isso muda a percepção de valor, tanto de quem consome quanto de quem produz. O artesão passa a enxergar o próprio trabalho de outra forma, e isso impacta diretamente na forma como ele se posiciona no mercado.”

Ao transformar tradição em linguagem contemporânea, a Artnor sinaliza um caminho possível para o futuro do setor. Um caminho onde o feito à mão não apenas resiste, mas evolui, se reposiciona e conquista novos espaços, sem perder a essência que o torna único.

Assessoria