Geral
"Os terreiros não são folclore, são arquivos vivos da história": pesquisador mapeia comunidades de matriz afro-indígena em Alagoas
Edmilson Teixeira
Eu sou o jornalista Edmilson Teixeira e hoje vamos mergulhar em um diálogo fundamental sobre memória, educação e ancestralidade em Alagoas.
Recebo para uma conversa Samuel da Silva Brito, pesquisador e autor do Recurso Educacional Aberto (REA) intitulado "Caminho dos Búzios". O projeto, desenvolvido em formato de website, é fruto de uma dissertação que realizou um mapeamento inédito e sensível dos terreiros no município de Junqueiro.
Nesta entrevista, vamos entender como essa ferramenta digital contribui para a valorização das comunidades de matriz africana e como o registro acadêmico se transforma em um instrumento prático de ensino e resistência cultural no Agreste alagoano.
Edmilson Teixeira — Samuel, você acaba de concluir uma pesquisa de mestrado que mapeou as comunidades de terreiro em Junqueiro. Como surgiu a ideia de investigar esses espaços?
Samuel da Silva Brito — A ideia nasceu de uma percepção muito simples, mas também muito incômoda: os terreiros sempre existiram em Junqueiro, mas ninguém sabia ao certo quantos eram, onde ficavam, quem eram suas lideranças. Durante décadas, essas comunidades permaneceram invisíveis nos registros oficiais, nos mapas da cidade, nos cadernos escolares. Eu mesmo, sendo da região, convivi com muitas dessas casas desde criança. O mestrado foi a oportunidade de transformar essa vivência em pesquisa, de dar a essas comunidades o reconhecimento que elas merecem.
Edmilson Teixeira — E o que você encontrou quando começou a percorrer o município?
Samuel da Silva Brito — Encontrei doze terreiros ativos, distribuídos pelas cinco zonas geográficas de Junqueiro. Uma diversidade impressionante: Candomblé Nação Angola, Candomblé Nação Jeje, casas que se identificam como Candomblé/Umbanda, além de outras variantes. Algumas com mais de quarenta anos de funcionamento ininterrupto. E o mais bonito: encontrei famílias inteiras dedicadas à preservação desses saberes, mães e pais de santo que aprenderam com seus avós e bisavós, e que hoje ensinam a nova geração.
Edmilson Teixeira — Você mencionou que a pesquisa resultou em um website, o Caminho dos Búzios. O que é exatamente essa ferramenta?
Samuel da Silva Brito — O Caminho dos Búzios é um Recurso Educacional Aberto (REA), ou seja, um site gratuito e acessível a qualquer pessoa. Ele reúne o mapa completo dos terreiros de Junqueiro, com fichas individuais de cada casa, fotografias, informações sobre lideranças, nação de culto, tempo de fundação. Tem também um acervo multimídia com documentários, entrevistas e textos de referência, além de roteiros de estudo do meio e um banco de atividades pedagógicas para professores que queiram trabalhar a história e cultura afro-brasileira em sala de aula.
Edmilson Teixeira — E por que o nome Caminho dos Búzios?
Samuel da Silva Brito — Os búzios, na tradição dos cultos afro-indígenas, são instrumentos de consulta aos orixás, mas são também, em sentido mais amplo, aquilo que guarda e revela a memória. Assim como se lançam os búzios sobre um tabuleiro - o termo ritualístico correto nas religiões de matriz africana é Opon Ifá - para interrogar o destino, a pesquisa se lançou sobre os territórios sagrados de Junqueiro para interrogar a história. O caminho, por sua vez, é o percurso que professores, estudantes e visitantes são convidados a trilhar — um roteiro etnográfico que conecta escolas e terreiros, saberes acadêmicos e saberes tradicionais.
Edmilson Teixeira — Você fala em "saberes tradicionais". Como a academia costuma tratar esses conhecimentos?
Samuel da Silva Brito — Durante muito tempo, a academia tratou os saberes dos terreiros como folclore, como superstição, quando muito como objeto de estudo exótico. Raramente como conhecimento legítimo. Mas autores como o malinês Amadou Hampâté Bâ nos ensinaram que a tradição oral é um sistema completo de transmissão de saberes — cosmopercepções, técnicas, valores, memórias — que opera pela performance, pela escuta, pela repetição. Um velho africano que morre é uma biblioteca que se queima, ele dizia. É nessa direção que o Caminho dos Búzios caminha: reconhecer os terreiros como centros vivos de produção de conhecimento e não como meros objetos de estudo.


Tatetu Ricardo Lins, ao fundo, templo onde são realizadas cerimônias de Candomblé, Zona Rural, Junqueiro
Edmilson Teixeira — A pesquisa ouviu lideranças importantes. Quem são essas pessoas e o que elas contaram?
Samuel da Silva Brito — Ouvimos muitas vozes, mas uma delas foi especialmente generosa: Mãe Fátima D'Oxum. Ela nos contou sobre sua infância no terreiro de Dona Zulmira, uma das pioneiras dos cultos em Junqueiro. Dona Zulmira, segundo ela, andava de calças sociais e chapéu, desafiando as convenções de gênero de seu tempo. Foi ela quem botava a pequena Fátima debaixo da mesa de santo quando a menina começava a se manifestar, com apenas sete anos. Essas histórias são documentos preciosos. Elas revelam como a transmissão do axé não opera por herança automática, mas por alianças espirituais e por uma pedagogia que se aprende no corpo, no território, na colheita das ervas ao amanhecer. Além de Mãe Fátima, foram entrevistados: Edvan Barbosa da Silva (Tatetu Deuacy D’Oxóssi), Ricardo José Correia Lins (Tatetu Ricardo), Francisco Pereira da Silva (Pai Chiquinho), José Alcino dos Santos (Babalorixá Obalynan D’Xangô) e José Ailton da Silva (Babalorixá Obadegy D’Xangô). Cada conversa foi um encontro de sabedoria, encanto e fortalecimento.
Edmilson Teixeira — Você também menciona figuras como Maria Januária, Marta dos Santos e Mãe Matilde. Quem foram elas?
Samuel da Silva Brito — Maria Januária da Conceição é um caso emblemático de resistência silenciosa. Viveu entre 1920 e 1996, mudou-se para Junqueiro em 1957, e sua prática ritual, identificada com o chamado "Xangô Rezado Baixo", operava de forma discreta no cotidiano. Ela convertia gestos aparentemente banais — como preparar uma galinha à cabidela — em atos ritualísticos camuflados, numa época em que a perseguição aos terreiros ainda era violenta. Marta dos Santos, no Povoado Cinzeiro, estruturou seu terreiro a partir de uma lógica matrilinear: depois dela, o comando passou para suas filhas Juanita, Natália e Olindrina. Já Mãe Matilde Rosa introduz a dimensão translocal: baiana de Cachoeira e São Félix, radicada em São Paulo, vinha três vezes por ano a Junqueiro para fazer imersões espirituais nas matas da Serra do Cruzeiro. Essas quatro mulheres — cada uma à sua maneira — teceram a malha religiosa que hoje sustenta os terreiros da região.
Edmilson Teixeira — E como a escola pode se apropriar desse material?
Samuel da Silva Brito — O site oferece várias possibilidades. Temos roteiros de estudo do meio para visitas a terreiros, com orientações éticas sobre como se aproximar dessas comunidades. Temos um banco de atividades organizadas por temas transversais, pensadas a partir dos dez eixos propostos pelo filósofo afrocentrado Molefi Asante: você e sua comunidade, bem-estar e biologia, tradição e inovação, expressão artística, localização no tempo e no espaço, produção e distribuição, poder e autoridade, tecnologia e ciência, escolhas e consequências, mundo e sociedade. São atividades que vão desde leitura de narrativas orais em sala de aula até projetos de pesquisa de longa duração, passando por oficinas de reconhecimento de ervas, confecção de mapas colaborativos, produção de audiovisual e ações de devolutiva para as comunidades.
Edmilson Teixeira — Você mencionou os sete princípios dos Recursos Educacionais Abertos. Como eles dialogam com a filosofia dos terreiros?
Samuel da Silva Brito — De forma surpreendente. Os REA partem da ideia de que o conhecimento é um bem comum, dinâmico e permanentemente inacabado. Pois é exatamente assim que o saber circula nos terreiros: ninguém é proprietário privado do axé, ele é herança coletiva que precisa ser transmitida e recriada a cada geração. A tradição oral não opera por fixação estática, mas por contínua reatualização. Cada novo corpo iniciado, cada nova narrativa pronunciada reconfigura o legado ancestral. O Caminho dos Búzios se inscreve nessa encruzilhada: entre a pedagogia diaspórica dos terreiros e a filosofia aberta dos REA, entre a oralidade milenar e as tecnologias digitais.
Edmilson Teixeira — E a defesa da dissertação, quando acontece?
Samuel da Silva Brito —A data marcada pelo programa foi 31 de março de 2026. A pesquisa está concluída, o site está no ar, o material foi todo validado pelas comunidades. Agora é o momento de submeter o trabalho ao olhar da banca, composta por professores e especialistas na área. A expectativa é que, depois da defesa, a dissertação e o Caminho dos Búzios possam circular ainda mais, subsidiar práticas docentes em todo o país, contribuir para a educação das relações étnico-raciais e, principalmente, ajudar a desfazer aquela invisibilidade histórica que mencionei no começo.
Edmilson Teixeira — Para encerrar: o que você espera que professores e estudantes encontrem no Caminho dos Búzios?
Samuel da Silva Brito — Espero que encontrem um convite. Um convite para reconhecer, nos terreiros de Junqueiro e de todo o Brasil, não exotismo ou pitoresco, mas centros vivos de produção de saber, memória e identidade. Um convite para aprender que a história não está apenas nos documentos escritos, mas nos corpos que dançam, nas folhas que curam, nas comidas que alimentam o santo, nas palavras que os mais velhos pronunciam em línguas que a escola nunca ensinou. Um convite, afinal, para que cada um faça sua própria travessia — e volte transformado.
Perfil
Samuel da Silva Brito é mestre em Ensino de História pelo Prof História da Universidade Federal de Sergipe (UFS). O site Caminho dos Búzios pode ser acessado gratuitamente https://sites.google.com/view/... A dissertação completa estará disponível em breve no repositório do Prof História e na Plataforma de Teses e Dissertações da CAPES.