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Mestres do Patrimônio Vivo transformam o artesanato em herança de Alagoas

19/03/2026
Mestres do Patrimônio Vivo transformam o artesanato em herança de Alagoas
Fotos: Saberes tradicionais seguem sendo transmitidos por mestres em diferentes regiões de Alagoas | Tatiane Almeida/Alexandre Teixeira e Acervo Alagoas feita à mão

Daniel Borges

No toque da madeira, no barro moldado com calma, no fio que se entrelaça em silêncio, vivem histórias inteiras. Em um tempo que exige pressa, são mãos como essas que mantêm vivas tradições que atravessam gerações em Alagoas. Entre os 40 mestres do Patrimônio Vivo do Estado, 13 são representantes do artesanato, guardiões de técnicas, modos de fazer e formas de ver o mundo que não cabem apenas em palavras.

Cada peça criada por esses mestres é também um registro de tempo, território e pertencimento. Em Boca da Mata, o talento de André da Marinheira transforma madeira em esculturas que ganharam o país. Em Penedo, Claudeonor Higino mantém viva a linhagem da escultura sacra, herdeiro de uma tradição que atravessa séculos. No Muquém, em União dos Palmares, Dona Irinéia faz do barro uma extensão da vida quilombola, criando peças que carregam memória e resistência.

No Pontal da Barra, em Maceió, Dona Nete borda o filé como quem escreve uma história em linhas coloridas, enquanto Maria de Clarice, em São Sebastião, segue ensinando a renda de bilro, equilibrando tradição e os desafios das novas gerações. Em Marechal Deodoro, Dona Moça mantém viva a delicadeza da renda labirinto, e em Piaçabuçu, Dona Lourdes transforma retalhos em bonecas que percorrem o país.

O barro também ganha forma única nas mãos de João das Alagoas, em Capela, onde tradição e imaginação caminham juntas. Já em Rio Largo, Pedrocas esculpe troncos e transforma madeira em poesia, dando forma a histórias que brotam da matéria bruta.

Entre aço, sucata e invenção, Marta Arruda construiu uma trajetória singular, rompendo barreiras e abrindo caminhos. Na Barra de Santo Antônio, Sônia Maria de Lucena encontrou no bordado da renda singeleza um recomeço, transformando o ofício em fonte de renda e partilha. E em Maceió, Vânia Oliveira une tradição e inovação, criando peças que dialogam com o meio ambiente, a cultura popular e a educação.

No sertão, em Piranhas, o mestre Rubério de Oliveira Fontes segue esculpindo memórias do Velho Chico em madeira. Suas embarcações em miniatura são testemunhos de um tempo que ele se recusa a deixar desaparecer.

“Eu me sinto muito feliz, agradeço a Deus pelo dom que ele me deu. Continuo fazendo meu trabalho na madeira e tenho muita vontade de transmitir o que sei para outras pessoas”, conta o mestre Rubério, do alto de uma vida inteira dedicada à arte.




A partilha do saber, aliás, é fio comum entre esses mestres. Mestra Sônia transformou o que aprendeu ainda criança em oportunidade para outras mulheres.

“O bordado entrou na minha vida como um apoio em um momento difícil, mas hoje é também uma forma de ajudar outras pessoas a aprender e seguir em frente”, afirma.

Para Vânia Oliveira, o artesanato é caminho de vida e também de luta coletiva.

“Eu nunca imaginei que ia ser artesã. Comecei fazendo lembrancinhas para minha filha e aquilo foi crescendo. Hoje, vejo que o artesanato é o que eu construí ao longo da vida. A gente não pode esperar reconhecimento, a gente tem que fazer. E é isso que eu deixo para os mais novos: fazer, aprender e seguir”, diz.




Para a mestra, o fazer artesanal também é um gesto político e social.

“Quem faz cultura sabe o valor do que produz. A gente vive disso, é profissão, é trabalho. E precisa ser visto dessa forma”, completa Vânia.

À frente da Secretaria de Estado da Cultura e Economia Criativa de Alagoas, a secretária Mellina Freitas ressalta que, embora o artesanato não seja uma atribuição direta da pasta, o diálogo com o artesanato é permanente.

“A cultura em Alagoas é feita de encontros. Mesmo não sendo uma área diretamente vinculada à secretaria, o artesanato está presente no nosso trabalho de forma transversal, seja nas ações com os mestres do Patrimônio Vivo, nos editais, nas atividades que realizamos e nas parcerias com a Secretaria de Estado de Relações Federativas e Internacionais e o Programa Alagoas Feita à mão. São saberes que caminham junto com a nossa política cultural”, afirma.




Ela também lembra o olhar atento do Governo de Alagoas para a valorização dos fazedores de cultura.

“O governador Paulo Dantas tem compreendido a importância de reconhecer quem constrói a identidade do nosso estado. Os mestres são parte fundamental disso, porque mantêm viva uma herança que pertence a todos nós”, pontua.

Patrimônio Vivo

Em Alagoas, a sabedoria não mora apenas nos livros, ela vive nas pessoas. É esse entendimento que sustenta o Registro do Patrimônio Vivo, criado pela Lei Estadual nº 6.513/2004 e atualizada pela Lei nº 7.172/2010, um instrumento que reconhece, ainda em vida, aqueles que carregam os conhecimentos da cultura popular.

O reconhecimento é uma forma de dizer que aquele saber importa e precisa seguir adiante. São mestres e mestras que dominam técnicas, práticas e tradições construídas ao longo de décadas, seja no artesanato, na música, nos folguedos, na literatura oral ou em tantas outras expressões culturais que moldam a identidade do estado.

Para chegar à esse reconhecimento, não basta apenas saber fazer. É preciso uma vida dedicada. A lei estabelece critérios claros, o candidato deve ser brasileiro, morar em Alagoas há mais de 20 anos, ter atuação cultural comprovada pelo mesmo período e, principalmente, estar disposto a ensinar, a compartilhar, a manter o ciclo do conhecimento em movimento.

O processo acontece por meio de edital público, onde trajetórias são apresentadas, histórias reunidas e memórias ganham forma em documentos, fotos e depoimentos. É quando o invisível se torna visível aos olhos do Estado.

Uma vez reconhecido, o mestre passa a integrar o Livro do Registro do Patrimônio Vivo e recebe uma bolsa mensal, viabilizada pelo Fundo de Desenvolvimento de Ações Culturais (FDAC), como forma de garantir condições para continuar criando e ensinando.

Mas talvez o mais importante não esteja na lei nem no papel. Está no gesto contínuo de ensinar alguém mais jovem, de abrir o ateliê, de dividir o tempo e o saber. Porque, no fim, ser Patrimônio Vivo é isso, não deixar a cultura parar.