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Liquidações bancárias e recuperação bilionária expõem fragilidades e deixam investidores brasileiros em alerta
Os últimos meses têm sido duros para muitos investidores brasileiros. O que começou com a liquidação extrajudicial do Banco Master, passou pelo caso da Will Financeira, conhecida como Will Bank, e agora ganha novos contornos com a recuperação judicial do Grupo Fictor, estimada em R$ 4,2 bilhões, tem provocado insegurança e, principalmente, aprendizado forçado sobre risco, garantias e limites do sistema financeiro.
No caso do Banco Master e, posteriormente, da Will Financeira, que integrava o mesmo conglomerado, os investidores ainda contavam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos, o FGC, respeitado o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição ou conglomerado financeiro. Ainda assim, muitos foram surpreendidos ao descobrir que aplicações em empresas do mesmo grupo compartilham o mesmo teto de garantia.
“No caso do Will Bank, por fazer parte do conglomerado Master, quem já havia atingido o limite de R$ 250 mil no Banco Master e depois investiu na Will Financeira pode não ter direito a uma nova cobertura do FGC. Esse é um ponto essencial que muitas pessoas desconhecem”, alerta Reinaldo Domingos, presidente da ABEFIN, Associação Brasileira de Profissionais de Educação Financeira.
Agora, com a recuperação judicial do Grupo Fictor, o cenário é ainda mais delicado. Diferentemente dos bancos e financeiras regulados pelo Banco Central e cobertos pelo FGC, os investimentos realizados por meio de Sociedades em Conta de Participação, as SCPs, não contam com essa proteção. A estrutura, prevista no Código Civil, não é regulada pela Comissão de Valores Mobiliários, a CVM, o que implica menor transparência e maior risco para quem aporta recursos.
O Grupo Fictor estima dívidas de aproximadamente R$ 4,2 bilhões, sendo R$ 2,7 bilhões relacionados às SCPs, com cerca de 10 mil investidores envolvidos e tíquete médio de R$ 270 mil. Parte desses investidores questiona judicialmente a forma como a dissolução das sociedades foi conduzida antes do pedido de recuperação judicial, enquanto a empresa sustenta que o processo visa organizar e viabilizar os pagamentos.
Para Reinaldo Domingos, independentemente dos desdobramentos jurídicos, o episódio reforça lições fundamentais. “Muitos investidores estão aprendendo a duras penas que rentabilidade elevada sempre vem acompanhada de risco elevado. Não existe investimento milagroso. Quando a promessa parece boa demais, é preciso redobrar a análise”, afirma.
FGC não é solução para tudo
Os casos do Master e do Will Bank também escancararam uma falsa sensação de segurança. O FGC é um importante mecanismo de proteção, mas tem limites claros. Além do teto de R$ 250 mil por conglomerado financeiro, há também um limite global de R$ 1 milhão por CPF a cada período de quatro anos.
“O investidor precisa entender que o FGC não é um seguro ilimitado. Ele protege dentro de regras específicas. Concentrar valores elevados em uma única instituição, ou em empresas do mesmo grupo, pode significar ultrapassar o limite e ficar descoberto”, reforça Domingos.
Diversificação e conhecimento são as principais defesas
Diante desse cenário, especialistas defendem três pilares essenciais:
• Diversificação entre diferentes instituições e produtos• Respeito aos limites do FGC por conglomerado• Análise criteriosa da saúde financeira e da regulação da instituição
“No caso das SCPs, por exemplo, muitos investidores não sabiam exatamente como funcionava a estrutura, qual era o nível de fiscalização ou quais riscos estavam assumindo. Investir sem entender o produto é delegar o próprio patrimônio à sorte”, destaca o presidente da ABEFIN.
Ele também alerta para o comportamento emocional diante de promessas de retornos acima da média de mercado. “O dinheiro é fruto de anos de trabalho. Ele precisa ser tratado com estratégia, não com expectativa de ganho rápido. Pulverizar investimentos não é apenas uma técnica financeira, é uma atitude de proteção patrimonial.”
Momento de amadurecimento do investidor brasileiro
Os episódios recentes não significam fragilidade generalizada do sistema financeiro, mas evidenciam que risco faz parte do mercado e que o desconhecimento potencializa perdas. Para Reinaldo Domingos, o momento é de amadurecimento. “Estamos vivendo um divisor de águas. O investidor brasileiro está percebendo que precisa estudar mais, perguntar mais e desconfiar mais. Educação financeira não é opcional, é uma necessidade para quem deseja preservar e multiplicar patrimônio com segurança.”
Entre liquidações, disputas judiciais e incertezas, a principal mensagem que fica é clara: retorno consistente exige disciplina, diversificação e compreensão profunda dos riscos envolvidos.
Ascom Abefin