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Na Uncisal, mulheres fazem a ciência atravessar a sala de aula, o laboratório e o cuidado em saúde
Danielle Cândido
A ciência não ocupa um espaço isolado na Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (Uncisal). Ela atravessa a sala de aula, orienta pesquisas, se materializa em ações de extensão e se traduz em cuidado nos serviços de saúde. Essa compreensão é o ponto de partida da trajetória da professora Edna Pereira Gomes de Morais, personagem central da primeira reportagem de uma série especial em alusão ao Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência - celebrado em 11 de fevereiro -, que destaca a presença feminina na produção do conhecimento científico na universidade.
Professora da Uncisal desde 2002, Edna Morais construiu sua trajetória acadêmica a partir do curso de Fonoaudiologia e, ao longo dos anos, consolidou uma atuação que articula ensino, pesquisa, extensão e assistência. Atualmente, é professora titular da instituição, ministra disciplinas na graduação e na pós-graduação, atua no Centro Especializado em Reabilitação (CER III), unidade assistencial da Uncisal, coordena o Laboratório de Tecnologia e Evidências em Saúde (LabTES) e desenvolve projetos de pesquisa e extensão voltados à qualificação do cuidado em saúde.
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Ciência como prática cotidiana no ensino
Na sala de aula, a ciência é apresentada não apenas como conteúdo, mas como prática permanente. Para a professora, formar profissionais da saúde exige estimular o pensamento crítico e a tomada de decisões fundamentadas em evidências. “A ciência precisa ser uma prática diária, alicerçando o ensino, a pesquisa, a extensão e a assistência”, afirma Edna, ao defender que o conhecimento científico deve orientar tanto a formação quanto a atuação profissional.
Essa perspectiva se reflete diretamente nas disciplinas que ministra, como Pesquisa em Fonoaudiologia, na graduação, e SUS como Escola, no Mestrado Profissional em Ensino em Saúde e Tecnologia (MEST). Segundo ela, o contato contínuo com a literatura científica e com problemas reais da prática em saúde permite que os estudantes desenvolvam um olhar reflexivo e compreendam a ciência como parte indissociável do cuidado.
Pesquisa e produção de evidências em saúde
A atuação no campo da pesquisa ganhou um espaço institucional próprio com a criação do Laboratório de Tecnologia e Evidências em Saúde (LabTES), coordenado por Edna em parceria com a professora Luciana Corá. O laboratório abriga projetos de iniciação científica, trabalhos de conclusão de curso e orientações de mestrado, além das pesquisas desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação Humana e seus Distúrbios (GEPCH), liderado pela docente.
Para Edna, o laboratório representa a materialização de um projeto que busca reduzir a distância entre produção científica e prática clínica. “Embora alguns não compreendam a importância de um laboratório de evidências em saúde, ele tem um papel fundamental na universidade, pois não se limita à produção do conhecimento, mas à sua tradução para a prática”, explica. No LabTES, são desenvolvidos estudos e produtos técnico-tecnológicos baseados em evidências, com foco na formação de recursos humanos e na qualificação das decisões clínicas.

Entre as pesquisas em andamento, destaca-se um estudo financiado pelo Programa de Bolsas de Incentivo à Pesquisa em Saúde (BIPES), que investiga os efeitos de programas de prevenção aos distúrbios vocais em profissionais da voz. O trabalho busca responder a questionamentos surgidos a partir da prática e contribuir para intervenções mais seguras e eficazes na área da saúde vocal.
Extensão como ponte com a sociedade
A ciência também se projeta para além dos muros da universidade por meio da extensão. Edna coordena o projeto de Promoção da Atenção à Saúde e Bem-Estar Vocal Docente (Provoz), voltado à promoção da saúde vocal de professores, e atua como coordenadora adjunta do projeto Consumo e Produção Científica para o Social (Conciso), que trabalha a produção e o consumo científico com foco social. Nessas iniciativas, o conhecimento produzido na universidade é compartilhado com a comunidade de forma acessível e contextualizada.
“A extensão é o espaço onde a ciência se transforma e se torna acessível à sociedade”, pontua a professora. Para ela, esse movimento de escuta, investigação e devolução do conhecimento é essencial para que a universidade cumpra seu papel social e contribua para a melhoria da qualidade de vida da população.
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Ciência aplicada à assistência no SUS
No âmbito da assistência, Edna atua no Centro Especializado em Reabilitação (CER III) da Uncisal, onde supervisiona estágios e acompanha o atendimento fonoaudiológico. Nesse contexto, a ciência orienta desde a escolha de instrumentos validados até o planejamento terapêutico e a reflexão sobre a prática clínica. A docente destaca que, na Fonoaudiologia, ainda se discute a existência de um distanciamento entre ciência e prática, e que o trabalho desenvolvido pelo grupo de pesquisa busca justamente reduzir esse intervalo.
“A ciência permite um cuidado qualificado, ético e humanizado”, afirma. A utilização de protocolos baseados em evidências e a análise constante dos resultados contribuem para intervenções mais individualizadas, respeitando as singularidades dos usuários e aprimorando o cuidado ofertado no Sistema Único de Saúde (SUS).
Mulheres na ciência e produção de conhecimento
Ao refletir sobre o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, Edna reconhece avanços na presença feminina nos espaços de produção científica, mas ressalta que ainda há desafios a serem enfrentados. “Hoje vemos mulheres gerenciando laboratórios e conduzindo pesquisas de impacto, mas a desigualdade persiste, especialmente em grandes projetos e em áreas historicamente ocupadas por homens”, observa.
Na Fonoaudiologia, área majoritariamente feminina, a professora destaca a contribuição de mulheres pesquisadoras que transformam o campo científico e inspiram novas gerações. Para ela, o conhecimento é um instrumento de emancipação e respeito. “Costumo dizer às jovens mulheres que oriento que o conhecimento liberta. É preciso fazer ciência com qualidade, ética e consciência, transformando esse saber em algo capaz de melhorar a vida das pessoas”.
Ao longo de sua trajetória, Edna construiu uma atuação marcada pela integração entre ensino, pesquisa, extensão e assistência, demonstrando que a ciência, quando praticada de forma transversal, pode transformar tanto a formação acadêmica quanto o cuidado em saúde. Esse percurso também evidencia como o conhecimento científico orienta decisões e organiza práticas no cotidiano da universidade pública, criando condições para que diferentes frentes de atuação dialoguem de forma integrada. Essa experiência inaugura a série especial da Uncisal, que seguirá destacando histórias de mulheres que fazem da ciência uma prática viva no cotidiano da universidade e da sociedade.