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Medicina Fetal garante gravidez mais segura para gestante e bebê

16/11/2016
Medicina Fetal garante gravidez mais segura para gestante e bebê

Os problemas acarretados pelo zika vírus e sua relação com a microcefalia gerou um debate internacional sobre o acompanhamento da vida intrauterina, desde os primeiros meses da gravidez. O pré-natal passou a ter um papel ainda mais importante e a Medicina Fetal, até então pouco conhecida, ganhou o centro das atenções da mídia e da população.

"É importante salientar que a Medicina Fetal busca acompanhar o desenvolvimento do feto. O médico que atua na área tem que ter formação em Ginecologia, Obstetrícia e Medicina Fetal para, através da ultrassonografia, obter dados específicos sobre o futuro bebê", explica a especialista Taynara Soares, formada pela Ufal, com residências médicas em Ginecologia e Obstetrícia pelo CISAM e em Medicina Fetal pelo IMIP, ambas em Pernambuco.

Durante muito tempo, a perspectiva dos primeiros meses da gravidez era tratar a saúde da mulher, com o passar do tempo, porém, ficou cada vez mais evidente a necessidade de acompanhar o desenvolvimento do feto, ou seja, a vida intrauterina. Os dados apontados pelos exames podem detectar problemas e encaminhar soluções.

A médica esclarece ainda que possíveis alterações do feto podem ser detectadas, mesmo sem relação com o estado de saúde da gestante. "Uma mulher diabética, por exemplo, pode estar aparentemente controlada e o bebê com peso normal, mas através das ultrassonografias podemos verificar sinais de alterações metabólicas no feto que possam levar a sofrimento ou até a óbito. Sinais esses, como a diminuição da movimentação corporal, tônus ou dos movimentos respiratórios fetal", afirma Taynara Soares.

A medicina fetal foi-se desenvolvendo lentamente e começou a ganhar força no início da década de 1970 quando surgiu, no mundo todo, a preocupação com o rastreamento das síndromes, principalmente da síndrome de Down, e foi possível fazer exames como a amniocentese (estudo das células do feto pela análise do líquido amniótico) para diagnóstico dessa síndrome.

No entanto, a medicina fetal tomou impulso quando apareceram aparelhos de ultrassom mais modernos, com maior potência e maior possibilidade de visibilidade do feto. A partir dessa conquista, o grande instrumento passou a ser o ultrassom, muito mais do que os procedimentos invasivos, como a amniocentese e o exame do vilo corial.

O boom dessa especialidade ocorreu, porém, por volta da década de 1990, quando surgiram as sondas transvaginais de ultrassonografia que permitiram fazer diagnósticos precoces de malformações ou do bem-estar fetal bem no início da gravidez.

Apesar de recente, é uma área de atuação que já está bem difundida no Brasil, embora com poucos especialistas em Alagoas. Apesar das limitações, o próprio Ministério da Saúde preconiza um mínimo de três exames de ultrassonografia durante a gestão, uma em cada trimestre da gravidez. "Na minha opinião, são necessários pelo menos cinco ultrassonografias: a inicial (endovaginal), os morfológicos do primeiro e do segundo trimestre, uma ultrassonografia com Doppler no terceiro trimestre e uma última antes do parto", defende a médica.

Com a ultrassonografia inicial, são observadas as condições dos ovários, trompas e útero, se este apresente mioma ou não, por exemplo. É um exame rápido, mas de extrema importância, porque também verifica o número de embriões, se está implantado corretamente, se os batimentos estão dentro do esperado e faz a datação correta da idade gestacional.

A ultrassonografia morfológica do primeiro trimestre, avalia o desenvolvimento do feto mais detalhadamente. "Ela é feita geralmente entre 12 e 14 semanas, e é quando se observa se há risco de alguma síndrome, ou seja, através de três marcadores específicos podemos detectar alterações e, com isso, determinar procedimentos futuros", informa a médica.

A gestante também pode ser submetida nesse primeiro exame ao cálculo de risco para síndromes ou para a pré-eclâmpsia (alterações de pressão arterial), que combina o estudo das artérias com o histórico pessoal e familiar da paciente. Todas os dados colhidos nesse primeiro trimestre indicam o prognóstico da gestão e a tomada de decisões importantes, como o uso de medicações para evitar problemas futuros no fim da gravidez.

É também no primeiro trimestre que pode ser detectada a anencefalia, ou seja, quando há ausência do crânio (parte óssea), deixando o cérebro exposto. Trata-se da má-formação mais grave e que tem a possibilidade realizar um aborto previsto por lei.

"Após o primeiro trimestre, a gestante começa a relaxar e curtir a gravidez", diz Taynara Soares. Segundo ela, esse exame morfológico do primeiro trimestre não é liberado pelo SUS e por alguns planos de saúde, já que de cardo com a Agência Nacional de Saúde, o procedimento não é prioritário no pré-natal. "Tanto a sociedade quanto os órgãos reguladores parecem desconhecer a importância desse exame, principalmente para quem detecta a gestação um pouco mais tarde e perde informações importantes", completa a médica.

O próximo exame de ultrassonografia deve acontecer entre 16 e 17 semanas de gestação. Nesta fase, acompanha-se a implantação da placenta, o bem-estar do bebê, suas medidas e o líquido amniótico que o envolve. "Também é possível ver o sexo do bebê, o que costuma deixar os futuros pais bastante ansiosos", afirma Taynara Soares.

O exame morfológico do segundo trimestre é realizado no quinto mês de gestação, ou seja, entre 22 e 24 semanas. Todos os sistemas em desenvolvimento do bebê são avaliados: sistema nervoso central, muscular, cardíaco, urinário, além do estado da coluna vertebral.

Em alguns casos, a partir das 28 semanas de gestação, a grávida pode se submeter a um exame de ultrassonografia com doppler, onde é possível ver o fluxo sanguíneo nos vasos do bebê, ou seja, se o bebê está bem oxigenado.

Uma última ultrassonografia é feita no último mês, para acompanhar a movimentação do bebê, se ele está abrindo e fechando a mão (tônus), movimentando bem, se tem líquido suficiente e se faz movimentos respiratórios, como está a situação geral no interior do útero. "É quando o médico identifica se pode aguardar ou antecipar um parto, levando em conta o bem-estar do bebê e da gestante", informa a especialista.

Segundo Taynara Soares, o avanço da Medicina Fetal contribui para que a gestação seja mais segura para a mãe e para o bebê. O pré-natal deixou de ser algo totalmente ligado à saúde da mulher e passou também a contar com informações fundamentais da vida em formação, ainda dentro do útero.

"O mais importante é que a Medicina Fetal usa a tecnologia a serviço da vida, contribuindo para um acompanhamento passo a passo da vida intrauterina e aumentando as relações de afeto entre o bebê e os futuros pais. Um exemplo é o ultrassom em 3D, que mostra imagens do bebê em três dimensões, dando pra ver em detalhes o rostinho dele e também o exame em 4D, que conta o tempo como a quarta dimensão, mostrando as mesmas imagens só que em movimento", conclui Taynara Soares.

Fonte: Conteúdo Mescla