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OAB/AL reúne 250 alunos com palestras sobre racismo e discriminação racial

11/11/2016
OAB/AL reúne 250 alunos com palestras sobre racismo e discriminação racial

WhatsApp-Image-2016-11-11-at-13.23.46Cerca de 250 alunos de seis turmas do ensino médio do Colégio Rosalvo Ribeiro foram recebidos no auditório do prédio sede da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Alagoas (OAB/AL), localizado no bairro de Jacarecica. Os estudantes participaram da primeira ação dentro do projeto desenvolvido pela Comissão da Promoção e Igualdade Social, em referência ao mês da Consciência Negra, e durante todo o dia acompanharam palestras e puderam discutir sobre racismo e discriminação racial, além de tratar sobre crimes homofóbicos e intolerância religiosa.

A presidente da OAB Alagoas, Fernanda Marinela, ressaltou a importância de todo o projeto proposto pela instituição para o mês - que conta ainda com uma audiência pública e uma visita à Serra da Barriga, localizada no município de União dos Palmares -, mas principalmente evidenciou a formação do caráter da juventude na luta contra a discriminação e o racismo.

“Sem dúvida o que propomos através da Comissão da Promoção e Igualdade Social é uma forma muito importante de conscientização. Ninguém nasce preconceituoso. Infelizmente, o preconceito é consolidado durante a vida. Quando preparamos a nossa sociedade desde a infância e juventude, quando os conceitos que são levados para a vida são formados, avançamos na luta. É um trabalho que precisa existir desde a infância e é bem verdade que isso nasce dentro de casa, mas também temos, como OAB Alagoas e sociedade, um papel muito importante que é de plantar a semente para um futuro melhor”, pontuou.

O Brasil, historicamente, teve uma postura ativa e permissiva em relação ao racismo e a discriminação. O presidente da Comissão da Promoção da Igualdade Social, Alberto Jorge, lembrou que muitos avanços foram conquistados, mas lamentou que a discussão ainda esteja presente no contexto social do brasileiro com exemplos tão atuais.

“Nós temos a obrigação de mostrar para essa juventude que em nossa sociedade não existe mais espaço para o racismo, discriminação social, intolerância religiosa e os crimes homofóbicos que estão acontecendo. A evolução social é inadiável. Estamos discutindo com a juventude o tema para que possamos formar cidadãos no futuro que possam compreender essa realidade e sejam ativistas sociais nessa luta. Só quem sente na pele o que é ser discriminado sabe como dói ser menosprezado pelo outro em razão da sua cor”, ressaltou.

O conselheiro federal da OAB Alagoas, Thiago Bonfim, foi um dos palestrantes do encontro. De forma leve e conversando com os alunos, ele pontuou a preocupação com o que é repassado na formação do indivíduo, afirmando que discriminação, racismo e intolerância ainda são ensinados dentro da sociedade brasileira.

“Me convidaram para fazer uma palestra, mas essa é uma discussão que pede uma palestra mais conversada, então, queria compartilhar algumas experiências e preocupações diante do momento em que vivemos. Como disse, sabiamente, a presidente da OAB Alagoas, ninguém nasce racista, ninguém nasce preconceituoso. Infelizmente, isso ainda é ensinado e a maior prova disso é que quando você é criança não identifica cor, classe social ou gênero. Você joga bola na rua e não quer saber se o cara que está jogando bola contigo tem um pai com um carro do ano ou que escola frequenta, se veste roupa e tênis de marca. Você quer brincar e se divertir. Quer estar na companhia de quem faz bem a você. Com o tempo você adquire esse ‘hábito’ e digo ‘hábito’ porque muitas vezes isso acaba sendo incorporado ao comportamento de forma natural ou ainda como forma de ser aceito em determinado meio”, explicou aos alunos.

Também palestrante, a advogada e professora, Emanoela Remígio, falou sobre o processo histórico e do desequilíbrio ainda persistente na sociedade brasileira. “Existe um dever em se buscar reparar emocionalmente e historicamente tudo que foi vivenciado. Temos ainda hoje um grande desequilíbrio nas questões sociais ligadas a economia ou classe. Grande parte da população afrodescendente ainda não teve acesso a espaços na sociedade ou se tiveram aparecem em percentual muito menor. Isso não é discurso para vaga por cota, é fato real. Nossa sociedade é preconceituosa e todo esse processo histórico de discriminação e segregação fez com que parte da nossa sociedade não conseguisse até hoje ter acesso aos ambientes de forma igualitários e é essa igualdade que buscamos”.

O encontro também contou com a participação da psicóloga Janine Ferro Lôbo, que conversou com os estudante sobre o nascimento do preconceito e de como a discriminação deixa marcas. “O primeiro ponto a ser trabalhado com os adolescentes é a conexão que devem ter consigo e com os pais, a família. Com o respeito dentro de casa dificilmente esse adolescente irá discriminar o outro ou os nossos ancestrais, a nossa história. Dentro do que vivenciamos atualmente temos a ideia de que infelizmente a discriminação sempre vai existir. Precisamos mudar isso. Precisamos atentar para as causas. O que leva uma pessoa a reproduzir atos de racismo? A quem se conectou para reproduzir aquilo? Lembrando que esse efeito, o da discriminação, é para a vida inteira. Quem recebe fica com a ferida para sempre. Isso precisa ser falado e trabalhado para que não aconteça”.

A coordenadora do ensino médio do colégio, Vanda Leite, ressaltou a importância das discussões para o aprendizado dos alunos, principalmente, nesta fase onde eles enfrentam as provas de vestibulares que abordam constantemente a temática. Após participarem das palestras, os estudantes passarão por atividades em sala de aula abordando o que foi trabalhado junto à OAB Alagoas.

“É um momento em que eles estão fazendo as escolhas para a vida. O tema está muito avançado em todas as mídias e esse momento ajuda muito aos nossos alunos nas redação dos próximos ENEM. Nas provas desse ano, a intolerância foi escolhida como tema da redação. Essas discussões contribuem muito. Os professores já trabalharam o tema várias vezes, fizeram uma preparação no colégio antecipando as palestras e quando voltarmos teremos redações e mais mesas de debates”, explicou a coordenadora sendo completada pela professora de redação, Camila Moura: “Estávamos esperando esse tema para o ENEM desse ano. Não tivemos racismo e discriminação, mas intolerância também relacionado. São temas persistentes e até por isso às vezes passam despercebidos, mas são enriquecedores para eles como alunos e cidadãos. Após as palestras vamos melhorar o debate em sala de aula”.

Os estudantes acompanharam atentos a cada ponto levantado pelos palestrantes, receberam o Estatuto da Igualdade Racial e participaram das discussões. No final do encontro, grupos culturais realizaram apresentações no foyer do auditório, com música e roda de capoeira.

Além de promover o crescimento do aluno como ser crítico e de lhe fornecer conhecimentos que permitam a superação do racismo e preconceito, o projeto ainda conta em sua programação com uma audiência pública, marcada para o próximo dia 17, e a ida à Serra da Barriga no dia 20 de novembro, marco referencial da morte de Zumbi e da Consciência Negra.

Fonte: Ascom AOB/AL