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Mulheres tecem a vida nas telas e linhas do bordado filé em Alagoas

20/09/2016
Mulheres tecem a vida nas telas e linhas do bordado filé em Alagoas

Quando Martinho da Vila entregou ao mundo a música ‘Só em Maceió’ e as proezas de Teka Rendeira à beira da Lagoa Mundaú, na década de 1980, ele ajudou a dar mais visibilidade ao artesanato comercializado no Pontal da Barra, bairro de Maceió de dupla tradição de ‘redes’. Aos homens, a rede de pesca; às mulheres, a rede montada em uma tela para preenchimento com as linhas coloridas do filé, um bordado típico das regiões pesqueiras. Só que o bordado filé das alagoanas é diferente, outro igual não há – e isso não é só história de pescador. Foi uma trama tecida por gerações de mulheres à beira das lagoas, e será preservado para as gerações futuras através do selo de Indicação Geográfica.

Foi um processo longo, de séculos. O bordado filé chegou ao Brasil em naus portuguesas na época da colonização. Floresceu no Ceará e em Alagoas, sendo moldado pelas características locais. Assim como os maridos pescadores, as mulheres estendiam telas e montavam redes para preencher com pontos bordados. À beira das Lagoas Mundaú e Manguaba, algumas das que justificam o ‘há lagoas’ que deu nome ao estado, o filé ganhou cores fortes e alegres, riqueza de detalhes e pontos intrincados, que causam o mesmo impacto seja nas grandes toalhas de mesa ou nos delicados marcadores de página.

Essa foi a diferença para o bordado filé alagoano: as ‘casas’ na rede foram preenchidas da mesma forma e com a mesma intensidade que as casas das comunidades ribeirinhas foram construídas ao longo dos anos, com a história de gerações de mulheres que estendiam suas redes à porta e iam ensinando filhas, sobrinhas e netas a fazerem o filé para vestir a família. Passou muito tempo para que tais peças passassem ao status de artesanato cobiçado por turistas.

Hoje, um grupo especial de filezeiras defende não só o saber do bordado, mas a qualidade que honra toda essa história. As mulheres do Instituto do Bordado Filé (Inbordal) foram se organizando enquanto artesãs e crescendo ao longo dos últimos sete anos, bordando, aprendendo a trabalhar em grupo, a como gerir um negócio e, especialmente, a defender o bom filé que foi transmitido de geração em geração.

Tecendo vidas à luz do candeeiro

As artesãs do Inbordal carregam uma característica muito forte, embora elas não percebam: a atividade do bordado enquanto fonte de renda começou diante de uma nova vida. Seja a nova vida do casamento e a necessidade de ajudar nas contas de casa, seja um objetivo mais prático, como para conseguir montar o enxoval do primeiro filho. Ou mais forte, como a fibra de mulheres que tiveram que recomeçar a vida após a separação ou para criar a filha, enquanto mãe solteira ainda aos 16 anos.

“Eu aprendi o filé com minha mãe, quando tinha 10 anos, mas peguei gosto com 16, quando fui mãe solteira. Sempre me sustentei com o filé, criei minha filha assim”, contou Rosiene da Silva Ramos, de 33 anos. Ela não fala muito sobre as dificuldades que passou, prefere focar nas conquistas. “Em 2013 e 2014, passamos por uma grande correria. As peças que produzimos para a coleção da Cantão foram muito trabalhosas, mas não me arrependo de ter participado disso, porque trouxe um resultado muito bom”, afirma, com o encanto de quem percebe a arte aprendida com a avó e a mãe nas passarelas de moda e vitrines de shoppings de todo o Brasil.

Esse é o sentimento compartilhado pela colega Lucineide de Sena Ramos. “Eu fico muito feliz em levar o trabalho da minha mãe adiante, esse legado dela. Minha filha de 14 anos, Nina, até sabe bordar, mas ela, infelizmente, quer ser médica”, disse a artesã com um pouco de tristeza na voz, numa escolha de palavras interessante – afinal, que mãe não se orgulharia de uma filha médica? – mas que representa bem o sentimento de proximidade e pertencimento dessas mulheres com o filé.

Ser filezeira em Alagoas geralmente significa poder trabalhar em casa, no quintal ou na porta da frente, conversando com as vizinhas enquanto observa os filhos brincando na rua. É a comodidade de poder criar os filhos e cuidar da família ao mesmo tempo em que ajuda nas contas. A própria Lucineide aprendeu a bordar assim: aos sete anos de idade, com a mãe ao centro, rodeada pelas cinco filhas na produção de uma colcha. Os cinco filhos homens iam com o pai para a lagoa, aprender a pescar. Depois que a mãe mostrava todos os pontos, era hora de receber seu próprio ‘tearzinho’ e trabalhar em peças pequenas.

“A gente costurava depois da escola e das tarefas de casa. Aqui no Pontal, não tinha energia elétrica, então costurei muito à luz do candeeiro. Ajudávamos minha mãe, que trabalhava para a ‘dona do artesanato’, que dava a linha e pagava pouco pela peça, mas era como funcionava naquele tempo. Aos 18 anos, cada filho ia saindo e cuidando da sua vida, arrumando outros trabalhos, ajudando só quando podia. Eu voltei para o filé quando me casei, para poder trabalhar enquanto criava meus filhos”, conta a artesã, que hoje, aos 47 anos, acumula 40 anos de experiência com o filé, 10 deles no Inbordal.

Uma história um pouco diferente é a de Gorete Maria de Lima, que aprendeu a bordar há 12 anos, com a filha. “É que ela ficava em casa, aqui no Pontal, e aprendeu com as amigas, enquanto eu trabalhava. Aprendi com ela e há 10 anos vivo só do filé. Quando você se senta e estica o seu tear, você se sente bem, é uma coisa bonita de fazer, você relaxa. E depois do Inbordal a minha vida mudou, porque eu tenho conhecimento das coisas, viajo para os eventos, não trabalho para outra pessoa”, desabafa Gorete.

As chaves da igreja

“A gente parece que mora mais aqui do que em casa, tem sempre coisa para resolver”, conta Mailda Soares, a guardiã da ‘chave da igreja’, que ajudou o Inbordal a conquistar o direito de instalar sua sede na Casa dos Freis, uma bela chácara na Ilha de Santa Rita, em Marechal Deodoro, município vizinho à capital Maceió. Uma mulher muito ativa e agitada, Mailda é a vice-presidente do Instituto, um testemunho real da diferença que o associativismo fez na vida das mulheres da região das lagoas.

“O Inbordal mudou minha vida no campo financeiro, na sintonia e no sentido de viver em grupo. A gente estudou isso, com as consultoras do Sebrae, e trabalhou exaustivamente, ao ponto de perder a paciência. Um dia, eu disse mesmo para a consultora que eu não queria mais desenhar, queria era logo começar o trabalho, e saí irritada. Depois, fiquei morrendo de vergonha, porque vi a utilidade daquela dinâmica, que era para ensinar a gente a trabalhar em grupo. E isso é uma diferença entre o Inbordal e as outras associações: aqui, a gente separa as coisas e cada uma faz sua função. Nós somos uma empresa de verdade”, defende Mailda, em voz firme e convicta.

Por ser detentor do selo de Indicação Geográfica que foi concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), em abril deste ano, para atestar oficialmente que não há outro bordado igual ao da região, o Inbordal precisa ser rígido com o cumprimento do Caderno de Instruções do Filé, um guia que padronizou as normas de produção para que o Conselho Regulador dê o aval para utilização do selo. É um padrão para atestar a qualidade da peça produzida, algo que ainda encontra resistência, mas que as mulheres vêm trabalhando para sensibilizar as colegas filezeiras.

“Minha avó mesmo não ia ter paciência para isso não, ia deixar logo”, brinca Mailda, sobre a pessoa que lhe ensinou a arte do bordado filé quando ela ainda tinha oito anos de idade. “Eu aprendi fácil, fácil. Uma vizinha da minha avó, que tinha a mesma idade, também me ajudou. Depois que eu peguei todos os pontos, comecei a fazer para casa mesmo, mas, quando completei 18 anos, passei a fazer o filé para vender e comprar o enxoval da minha primeira filha. Vendia barato, para esse pessoal que vendia artesanato, mas eu nem me importava, ficava feliz da vida porque podia comprar o que eu queria”, revela a senhora de 53 anos, orgulhosa de seu feito.

Mailda já foi líder entre as artesãs e na comunidade, em associações anteriores ao Inbordal, construindo sua vida lado a lado com o artesanato e evoluindo ao longo do processo. Seu grande orgulho com o que aprendeu nos anos de consultorias do Sebrae em Alagoas, viabilizados pela integração ao instituto, contemplou outra geração de descendentes. Ela sempre guardou uma parte do dinheiro obtido com as vendas, fazendo uma pequena poupança, que foi de grande ajuda em um momento delicado para a família.

“Eu viajei para Recife com minha nora para acompanhar a cirurgia da minha neta, que é cardiopata, e a ajuda do Governo para acompanhá-la era muito pequena. Sem uma ajuda, ia ser difícil ir, e eu tinha uma reserva só de dinheiro do filé, do que estava vendendo aqui do Inbordal. Com esse dinheiro, viajamos, minha nora e eu, e deu para pagar todas as despesas. Isso para mim foi um grande orgulho”, relembra Mailda.

Conhecer as ocupantes da Casa dos Freis é entender como um grupo de mulheres se juntou para tornar aquele bordado – que rendia muitos elogios e pouco dinheiro – em um negócio que hoje sustenta lares e leva essas artesãs como profissionais respeitadas a eventos nacionais e até a passarelas de grifes conhecidas. É ver além da associação que as ajuda a conquistar mercado e encomendas importantes de hotéis e empresas. E essa história não seria completa sem apresentar também Petrúcia Lopes.

Do diploma ao bordado filé

A música da Teka Rendeira, citada no começo dessa história, ajudou muito na vida de Petrúcia Lopes, hoje presidente do Inbordal. Quando tinha 14 anos, a sua mãe decidiu mudar-se para o Pontal da Barra e abrir uma farmácia no bairro. “Ela tinha uma farmácia no Prado, fez uma pesquisa de mercado e viu que no Pontal não tinha esse tipo de negócio. Era também na época em que ela estava se separando do meu pai, então viu que o aluguel era barato e daí começamos com a empresa”, conta.

Com mãe pernambucana e de fácil acesso ao artesanato do estado vizinho, o negócio mudou em apenas dois anos: o potencial turístico e a propaganda gerada pela música fizeram-na mudar de ideia. A família investiu em uma loja que vendia artesanato de vários estados e, assim, seguiu na vida. “No começo, foi difícil. Mas, antes, não tinha essa demanda por produtos diferentes no Pontal, e mamãe trouxe muita coisa para vender na comunidade, e teve muita aceitação”, lembra a artesã.

Morando no Pontal, Petrúcia fez uma imersão no mundo das rendeiras e aprendeu a arte com as amigas. Cresceu, casou, estudou Design de Interiores na antiga Escola Técnica, hoje, curso da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), e foi batalhar seu lugar no mercado de trabalho. Como as coisas não estavam evoluindo bem, resolveu tirar do papel o projeto de loja de artesanato que foi seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e voltar para o artesanato. Pediu o ponto da antiga loja da sua mãe ao locatário e pôs mãos à obra.

“Foi muito interessante essa reabertura, porque fiz meu TCC em cima do projeto da minha loja. Eu lembro que, na época, o roxo era a cor da estação. Aí comecei a fazer as peças e já abri diferente. Ninguém botava manequim na porta, só as toalhas penduradas. Então, abri a loja com o manequim vestido numa camiseta de uma cor que combinava, com um casaquinho e uma saia longa de filé lilás. Um mês depois, o Pontal todo estava com manequim na porta, era roxo que não acabava mais!”, conta, rindo.

A ocasião em que abriu seu ponto de venda foi também quando teve que recomeçar sua vida após o divórcio. O que ela não imaginava era o impacto que isso ia ter em outras vidas também. Ela foi uma catalisadora no Pontal da Barra, disponibilizando tanto seu conhecimento acadêmico quanto os relacionamentos sociais em prol das artesãs da comunidade. Isso rendeu a entrada das filezeiras da região das lagoas no mundo dos brindes corporativos, por meio de encomendas do Governo de Alagoas e duas grandes encomendas a cada ano da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Alagoas (ABIH-AL) e do Maceió Convention & Visitors Bureau (MC&VB).

Interagindo com as artesãs e com as associações existentes, surgiu a Associação das Mulheres do Pontal da Barra, com Petrúcia como presidente. Em 2009, quando houve o chamado do Sebrae em Alagoas e de parceiros para apresentação da proposta de um selo de indicação geográfica, ela e suas colegas responderam. Os trabalhos foram iniciados e, em 2014, veio o registro como Instituto do Bordado Filé, as capacitações das rendeiras em 2015 e o selo, finalmente, em 2016.

“Costumamos sempre dizer no Sebrae que nós trabalhamos com os sonhos das outras pessoas. Lidamos com o artesanato há mais de 20 anos, então é uma história que vem sendo também passada de geração em geração dentro da instituição. Não só a minha equipe que se envolve, mas outras unidades, um verdadeiro time integrado. São as histórias de vida delas e esses resultados que nos motivam a continuar trabalhando, a fazer a diferença na vida delas”, afirma Vanessa Fagá Rocha, gerente da Unidade de Comércio e Serviços (UCS) do Sebrae em Alagoas.

E não pense que essa história acaba aqui. As integrantes do Inbordal estão conduzindo Oficinas de Aperfeiçoamento do Filé para bordadeiras de três municípios na região das lagoas Manguaba e Mundaú, para divulgar o padrão necessário para utilizar o selo da IG e continuar a preservação dessa sabedoria centenária. Elas são as novas mães e avós que vão seguir no repasse da tradição dos pontos coloridos e cheios de vida do legítimo filé alagoano.

Fonte: Agência Sebrae Alagoas