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“Meu Amigo Hindu”, de Hector Babenco, é a grande estreia da semana no Arte Pajuçara

09/03/2016
“Meu Amigo Hindu”, de Hector Babenco, é a grande estreia da semana no Arte Pajuçara
“O que você vai assistir é uma história que aconteceu comigo e a conto da melhor forma que eu sei”. É com esta declaração que o cineasta Hector Babenco nos apresenta seu novo filme: “Meu Amigo Hindu”, produção que estreia esta quinta-feira (10), no Arte Pajuçara. O longa narra a saga de Diego (Willem Dafoe), um bem sucedido diretor de cinema que, ao se ver diante de uma doença grave, enfrenta o medo da morte. Rodado em São Paulo entre final de 2014 e início de 2015, “Meu Amigo Hindu” conta ainda com nomes como Maria Fernanda Cândido, Selton Mello, Reynaldo Gianecchini, Maitê Proença, Bárbara Paz, Guilherme Weber, entre outros, marcando a volta do cineasta após um hiato de oito anos. Aliado a um elenco e uma equipe de ponta, o roteiro, assinado por Hector Babenco, é a chave para se alcançar o resultado surpreendente que se vê na tela. Pessoal, mas também ficcional, repleto de tramas criadas pela imaginação do diretor, a história de “Meu Amigo Hindu” transcende o rótulo de autobiografia e se torna uma rica fabulação sobre a vida e sua paixão pelo cinema. Para o psicanalista e escritor Sergio Telles, Babenco demole a casa de sua vida e usa os tijolos para construir outra casa: a do filme. Para Babenco, ainda que tenha escolhido a frase que abre o longa como um norte a ser dado ao espectador, “Meu Amigo Hindu” não é um relato factual. “Não é uma narrativa linear, nem um filme autobiográfico, mas é o que eu quis contar do que vivi. Os fatos existiram e eu os conto de outra maneira. Esta história eu conto da única forma que sei, que é fazendo um filme, em que não necessariamente é tudo real”, esclarece. Segundo o diretor, todo autor conta um pouco de si em tudo que cria e que narra. “O cinema é um pouco isso também. Não é ‘vou contar a minha vida’. É o oposto! Você desconstrói a sua vida e reconstrói em um filme aquilo que se quer narrar, o que te interessa”, explica. “Diego é um personagem que sou e não sou ao mesmo tempo”, acrescenta. “A gente nunca passa impune pelo que nos ocorre na vida. As marcas permanecem, principalmente na alma”, completa o cineasta.

COMO NASCEU A IDEIA

Babenco revela que foi por acaso que teve a ideia de criar uma ficção a que deu o nome de “Meu Amigo Hindu”. “Eu estava guiando meu carro. Parei em um sinal e veio um menino lavar o vidro. Olhei para ele e me lembrei do menino hindu, que esteve em tratamento comigo no hospital nos Estados Unidos. E me perguntei se ele ainda estava vivo”, relata Hector. “Então decidi começar um diálogo imaginário com ele sobre a minha dor naquele momento, a minha tristeza, a minha solidão, de como me sentia depois de ter sido curado, e tudo o que me estava acontecendo. Ao ponto de me questionar: ‘Será que eu estou morrendo e ninguém me diz nada? ’. E você meu amigo hindu, está vivo?”. Para o cineasta, “Meu Amigo Hindu” pode ser entendido como um diário imaginário entre um adulto (Dafoe, o alter ego do diretor) e um personagem que ele inventou. “Escolhi o menino hindu, que nos remete a algo exótico, distante da nossa cultura. Mas isso foi um processo natural, que apenas aconteceu. A ideia de fazer essas transferências se tornou um jogo.” Willem Dafoe acredita que um dos temas centrais do longa é justamente a importância de se contar histórias. “E também de partilhar histórias. É uma das coisas muito básicas em nossa cultura e isso nos eleva”, analisa o ator. O fato mais revelador da história é que Diego, para não morrer, negocia com a morte sob a condição de que não seja ele o escolhido, para que ainda possa fazer um próximo filme. Neste pacto, a morte se revela como afirmação da vida e o amor ao próprio cinema. “Achei o roteiro belíssimo. A história de um homem que driblou a morte. Fui na dele porque eu confio muito nele. Servi um diretor que admiro muito”, declara Selton Mello, que vive a morte, O Homem Comum, no longa. Babenco afirma que “Meu Amigo Hindu” “é um filme sobre nascer de novo através da feitura de um filme, da história contada.” “Ao longo dos anos vividos, e em qualquer momento da minha existência, sempre sonhei em fazer um filme. O Amigo Hindu talvez seja a melhor forma de contar o amor que eu tenho pela vontade de fazer cinema”, conclui ele.

HOMENAGEM AO CINEMA

O longa também traz, entremeadas à saga de Diego, inúmeras referências e homenagens ao cinema, tanto internacional quanto o do próprio Babenco. Em um ato de amor ao universo cinematográfico, o cineasta construiu diversas cenas que remetem aos filmes que marcaram sua vida e seu imaginário cinéfilo. Impossível não se lembrar de “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman, ao ver Diego (Dafoe) jogar xadrez com Selton Mello (Homem Comum) ou de se encantar ao ver Bárbara Paz dançar como Gene Kelly em “Cantando na Chuva” e de se lembrar de Fred Astaire e Ginger Rogers ao ver Dafoe cantando Cheek to Cheek (canção escrita por Irving Berlin, em 1935 para o longa “Top Hat”) no meio da noite. “Este filme está tão atrelado à história de Hector. E a história de Hector é tão atrelada ao cinema. E nessa ideia de contar uma história na qual ele encontrou sua identidade e o trabalho da sua vida foi tudo em torno do cinema. E Deus sabe como o mundo do cinema tem mudado”, observa Dafoe. “Mas a essência do que é o cinema não mudou. Esse é um filme que definitivamente se dobra perante o altar do cinema”, conclui o ator, que passou mais de três meses no Brasil durante as filmagens do longa.