O desespero de quase perder um filho, vítima de afogamento faz parte da vida de Alexandra Lemos (31 anos) e Allan Henrique Camilo (39 anos), respectivamente, bióloga e agropecuarista. O pequeno Luiz Henrique Camilo Lemos, hoje com dois anos e cinco meses, sofreu um acidente na piscina de casa, no município de Dois Riachos, no ano passado, e chegou a ficar 14 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Geral do Estado (HGE). No Brasil, afogamentos são a segunda causa de morte e a sétima de hospitalização, entre os acidentes, na faixa etária de 1 a 14 anos. Segundo o Ministério da Saúde, em 2012, 1.161 crianças de até 14 anos morreram vítimas de afogamentos, o que representa uma média diária de três óbitos. De acordo com a médica clínica Suely Suruagy, os perigos não estão apenas em mares, represas e rios. “Para uma criança que está começando a andar, por exemplo, três dedos de água representam risco. Assim elas podem se afogar em piscinas, cisternas e até em baldes, banheiras e vasos sanitários”, comentou. No caso do Luiz Henrique, a curiosidade quase o levou a óbito. Alexandra, a mãe, conta que assistia TV com os dois filhos quando as crianças se afastaram. Ela, atenta, sempre se dirigia ao local que estavam para ver o que faziam, mas, em um descuido de poucos minutos, percebeu o silêncio dentro da residência. Correu logo para a piscina onde encontrou o filho boiando desacordado. “Encontrei o Arthur (filho mais velho) no caminho até a piscina. Foi ele quem me disse que o Luiz tinha pulado na água. As minhas pernas quiseram travar, mas tirei forças não sei de onde para correr, tirá-lo da piscina e fazer os primeiros socorros, sem sequer saber se fazia corretamente”, descreveu Alexandra. Uma vizinha, técnica em enfermagem, auxiliou a assistência à criança aplicando técnicas específicas para o salvamento, como a massagem cardíaca e respiração, até o hospital mais próximo, que fica em Santana do Ipanema. Após, esse primeiro atendimento, foi encaminhada para o HGE, onde ficou internado 26 dias, 14 deles na UTI. “O acidente foi por volta das 16h50, a Kellen Eloysa foi fantástica! Graças a ela meu filho está vivo. Chegamos ao HGE meia-noite. No hospital Clodolfo Rodrigues, praticamente todos os profissionais pararam suas ocupações para assistir meu menino. Quando soubemos que ele teria que ir para um leito de UTI, corremos contra o tempo. O pessoal do HGE retornou a ligação para o hospital, dizendo que tinha surgido uma vaga. Bênção atrás de bênção!” Luiz Henrique se recuperou sem sequelas, surpreendendo até a equipe de profissionais da unidade hospitalar. “A evolução dele foi muito rápida! É uma criança forte, que foi assistida corretamente, em casa, quando a mãe fez os primeiros socorros e a vizinha auxiliou com a massagem e, também no hospital da região que o entubou e o encaminhou para nós”, ratificou a médica Suely Suruagy. Segundo ela, o afogamento é um dos acidentes mais letais em crianças e adolescente porque acontece de forma rápida e silenciosa. “Algumas características do desenvolvimento das crianças pequenas contribuem para que fiquem mais vulneráveis a afogamentos. Diferente dos adultos, as partes mais pesadas do corpo da criança pequena são a cabeça e os membros superiores. Por isso, elas perdem facilmente o equilíbrio ao se inclinarem para frente e, consequentemente, podem se afogar em baldes ou vasos sanitários. O processo de afogamento é acelerado pela pequena massa corporal, dois minutos são suficientes para que a criança perca a consciência, quatro a seis podem levar a danos permanentes no cérebro”, explicou a médica. Suely Suruagy orienta pais e familiares a supervisionar de forma ativa e constante as crianças. “É importante esvaziar baldes, banheiras e piscinas infantis depois do uso, assim como guardá-los virados para baixo e longe do alcance dos menores. Vasos sanitários devem ficar sempre fechados ou a porta do banheiro trancada”, disse. De acordo com a médica, cisternas, tonéis, poços e outros reservatórios domésticos devem permanecer trancados ou com alguma proteção que não permita “mergulhos” e as piscinas devem ser protegidas com cercas de no mínimo 1,5 m, para não serem escaladas. “Alarmes e capas de piscina também garantem mais proteção, mas não eliminam os riscos de acidentes. Esses recursos devem ser usados em conjunto com as cercas e a constante supervisão dos adultos”, recomendou a profissional. Para ela, boias e outros equipamentos infláveis passam uma falsa segurança, pois podem estourar, virar a qualquer momento e ser levados pela correnteza, quando em mares ou rios. “O ideal é que a criança use sempre um colete salva-vidas. O rápido socorro é fundamental para o salvamento da criança que se afoga. Muitas vezes, em cinco minutos, pode ocorrer a morte por asfixia. Por isso é tão importante pais, responsáveis, educadores e outras pessoas que cuidam de crianças aprenderem técnicas de primeiros socorros, como as que foram aplicadas no pequeno Luiz”, completou.